Páginas
Seções

Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Parasita: Corpos estranhos

Parasita: Corpos estranhos

Por Daniel Rodrigues O filósofo polonês, Zygmunt Bauman, grande leitor dos nossos tempos, bem descreve que a “modernidade líquida” em que se vive gera, por conta e culpa da globalização descontrolada, o que ele chama de “mixofobia urbana”, a tensão permanentemente desagradável e perturbadora da estranheza ao outro. Essa presença irritante entre estranhos da mesma cidade, vizinhos mas separados pelas diferenças sociais por meio de espaços “interditados”, é, segundo ele, “uma fonte inesgotável de ansiedade e de uma agressão geralmente adormecida, mas que explode continuamente”. O longa sul-coreano Parasita, escrito e dirigido por Bong Joon-ho, é, mais do que uma confirmação ou superação de expectativa, um dos filmes mais perspicazes na leitura destes tempos líquidos. Mordaz e crítico à sociedade capitalista, a obra expõe uma alegoria da vida real, em que, recorrendo aos mais animalescos recursos de sobrevivência nesta selva chamada cidade, todos os caminhos dessa violência sistêmica levam a uma coisa: a morte. Grande vencedor do Oscar de 2020, levando de forma inédita para um filme falado em...

Leia Mais

Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Dor e Glória: Retrato da formação de um artista

Dor e Glória: Retrato da formação de um artista

Por Eron Duarte Fagundes Como tantos outros diretores de cinema (o italiano Federico Fellini é o caso mais badalado na história do cinema), o espanhol Pedro Almodóvar, numa curva da estrada em que lhe bate dúvidas na continuidade de sua filmografia, decide tornar isso —a crise de criatividade— a matéria de sua reflexão cinematográfica. É o que ele faz em Dor e glória (Dolor y gloria; 2019). É seu oito e meio: sua paixão e sombras, seu “all that jazz”. Ainda que o cineasta negue uma factual autobiografia, pode-se dizer que, espiritual e conceitualmente, a personagem de Salvador Mallo refaz na narrativa o próprio realizador do filme —não somente por se tratar dum homem de cinema que espelha seu autor ou por situações humanas e sexuais assemelhadas com aquilo que se conhece da vida privada de Almodóvar, mas ainda por uma visão de mundo e do universo da arte intrínseca àquilo que se observa pelos filmes feitos pelo diretor há tantas décadas. À parte estas relações que pouco importam...

Leia Mais

Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Parasita – Sobre porões, subsolos e escadarias

Parasita – Sobre porões, subsolos e escadarias

Por Jaqueline Chalaadaptado a partir do roteiro do programa Na Trilha da Tela que vai ao ar aos sábados, 18h, pela FM CULTURA. Desde que surgiu nos cinemas, Parasita deixou claro que era um dos grandes, senão o grande filme do ano de 2019. Um ano que teve o tema da desigualdade social em destaque através de outras ótimas produções, como Coringa, Os Miseráveis e também o brasileiro Bacurau. O que diferencia Parasita dos demais, porém, é a facilidade com que Bong Joon-ho transita por vários gêneros, da comédia ao terror, sem perder o ritmo da narrativa sequer por um instante. Repleto de camadas e de simbolismos, Parasita é um filme que parece “atravessar” os demais por sua construção e conexão com a realidade em várias partes do mundo. Não por acaso, recentemente a BBC fez uma excelente reportagem sobre os porões reais habitados pela população pobre de Seul, os Banjihas.          Parasita traz na arquitetura dos porões os símbolos da opressão de uma classe social que se espreme...

Leia Mais

Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Crítica: Morto não fala

Crítica: Morto não fala

Por Chico Izidro Morto Não Fala é o primeiro longa-metragem da carreira de Dennison Ramalho, e é um filme de terror brasileiro que surpreende. A obra é adaptada de um livro de Marco de Castro, e traz um protagonista que tem o poder, ou seria maldição, de falar com os mortos? O sempre ótimo Daniel de Oliveira (Cazuza e Aos Teus Olhos) vive Stênio, funcionário do IML à noite. Sua rotina é de ver cadáveres e eles falam com ele, seja lamentando as mortes, seja contando detalhes de suas vidas. Em casa, pai de dois filhos e casado com Odete (Fabiula Nascimento), que não suporta Stênio e seu cheiro. Um dia, Stênio descobre que está sendo traído pela mulher, que tem um caso com o dono da vendinha local, Jaime (Marco Ricca). E no trabalho, recebe um novo cadáver, de um traficante. E ao “bater papo” com o morto, tem uma ideia – o de culpar Jaime pela morte do bandido. Daí em diante, a trama se transforma em...

Leia Mais

Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Crítica: A vida invisível

Crítica: A vida invisível

Por Chico Izidro O novo longa de Karim Aïnouz, A Vida Invisível, retrata o forte machismo da sociedade brasileira na década de 1950, sob a ótica de duas irmãs. A obra é baseada no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, livro de Martha Batalha, e roteirizado por Murilo Hauser, Inês Bortagaray e Karim Aïnouz. No Rio de Janeiro daquela época, Eurídice Gusmão (Carol Duarte e Fernanda Montenegro na terceira idade) é uma jovem que sonha em se tornar pianista e estudar no conservatório de Viena. Já sua irmã Guida (Julia Stockler), é praticamente o oposto, mostrando-se desinibida e mais fogosa. Um dia Guida decide fugir com seu namorado, um marinheiro grego. Porém, ao chegar a Atenas, descobre que o rapaz não era tudo o que ela esperava. Grávida, decide voltar para casa. Porém, seu pai, o conservador comerciante português Manuel (Antônio Fonseca) não admite ter embaixo de seu teto uma jovem solteira e com um filho e expulsa a menina. O pai a considera morta e assim conta...

Leia Mais