Parasita: Corpos estranhos
Por Daniel Rodrigues O filósofo polonês, Zygmunt Bauman, grande leitor dos nossos tempos, bem descreve que a “modernidade líquida” em que se vive gera, por conta e culpa da globalização descontrolada, o que ele chama de “mixofobia urbana”, a tensão permanentemente desagradável e perturbadora da estranheza ao outro. Essa presença irritante entre estranhos da mesma cidade, vizinhos mas separados pelas diferenças sociais por meio de espaços “interditados”, é, segundo ele, “uma fonte inesgotável de ansiedade e de uma agressão geralmente adormecida, mas que explode continuamente”. O longa sul-coreano Parasita, escrito e dirigido por Bong Joon-ho, é, mais do que uma confirmação ou superação de expectativa, um dos filmes mais perspicazes na leitura destes tempos líquidos. Mordaz e crítico à sociedade capitalista, a obra expõe uma alegoria da vida real, em que, recorrendo aos mais animalescos recursos de sobrevivência nesta selva chamada cidade, todos os caminhos dessa violência sistêmica levam a uma coisa: a morte. Grande vencedor do Oscar de 2020, levando de forma inédita para um filme falado em...
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