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Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Dor e Glória: Retrato da formação de um artista

Por Eron Duarte Fagundes

Como tantos outros diretores de cinema (o italiano Federico Fellini é o caso mais badalado na história do cinema), o espanhol Pedro Almodóvar, numa curva da estrada em que lhe bate dúvidas na continuidade de sua filmografia, decide tornar isso —a crise de criatividade— a matéria de sua reflexão cinematográfica. É o que ele faz em Dor e glória (Dolor y gloria; 2019). É seu oito e meio: sua paixão e sombras, seu “all that jazz”. Ainda que o cineasta negue uma factual autobiografia, pode-se dizer que, espiritual e conceitualmente, a personagem de Salvador Mallo refaz na narrativa o próprio realizador do filme —não somente por se tratar dum homem de cinema que espelha seu autor ou por situações humanas e sexuais assemelhadas com aquilo que se conhece da vida privada de Almodóvar, mas ainda por uma visão de mundo e do universo da arte intrínseca àquilo que se observa pelos filmes feitos pelo diretor há tantas décadas.

À parte estas relações que pouco importam para a consumação do filme num produto estético agudo, Dor e glória vai aperfeiçoando a maturidade do cinema de Almodóvar. Cada vez mais distante do grotesco estranho de seus trabalhos iniciais (embora esta raiz farsesca não deixe de influenciar nas sombras a encenação atual do diretor), Dor e glória move-se entre meditações da estética de filmar como algo moral e intelectual e uma nostalgia profundamente familiar (o cenário da infância recomposto em reencenações mentais do passado —há ali algo da composição nostálgica do cineasta italiano Francesco Rosi em Três irmãos, 1981). Entre o presente dum ocaso de vida (como homem e como artista) do protagonista e uma reconstituição mnemônica dos anos idos (as relações com a mãe na infância, os primeiros desejos sexuais na adolescência, a sensibilidade e a inteligência acima da média sempre, a amizade com um indivíduo mais velho e rude a quem ele ensina a ler e a escrever), o filme de Almodóvar flutua com elegância e acuidade.

Sem a sofisticação temática e formal de A pele que habito (2011), um Almodóvar recente, Dor e glória, ainda que vá por caminhos mais lineares e se valha de alguma coisa de melodramático e ingênuo, realiza-se como uma bela aventura intelectual do cinema atual.