Luto e memórias, por Adriana Androvandi

O 54º Festival de Cinema de Gramado, realizado de 12 a 22 de agosto de 2026, apostou em filmes autorais e com temas que abordaram, de diferentes formas, a morte, o luto, as memórias, o feminicídio, a diversidade, a inclusão ou a feita dela.
Optei por escrever sobre o longa-metragem nacional de ficção que mais apreciei, que foi “Feito Pipa”, de Allan Deberton (CE), e sobre o longa que ganhou o Kikito de Melhor Filme de Ficção, “Nosso Segredo”, de Grace Passô (MG).
Feito Pipa
Rodado na região do município de Quixadá (Ceará), o “Feito Pipa” acompanha o menino Gugu (Yuri Gomes), que é criado pela avó Dilma (Teca Pereira). Ao longo da narrativa, é revelado que a mãe de Gugu morreu há muitos anos atrás, lutando contra a construção de uma barragem que inundaria sua cidade.
Gugu é um menino queer e é perceptível que ele tem pouco contato com o pai, interpretado de forma contida por Lázaro Ramos, que se casou novamente e criou outra família. Apesar do rapaz usar enfeites, bijuterias, maquiagem e gostar de trajes chamativos, ele também joga futebol e não foge de uma briga.
Desta forma, Gugu transita entre o masculino e feminino. Ele gosta de dançar, inclusive com a avó, além de fazer acrobacias. Na casa onde vivem, ouvir música é um hábito.
O pai, quando encontra o filho, frequentemente o reprime, com receio de que seja motivo de riso. Neste universo, Gugu enfrenta bullying na escola.
No debate realizado um dia após a exibição do filme, o roteirista André Araújo contou que uma das questões que inspirou o filme foi o fato de ter feito, anteriormente, um trabalho em uma cidade que seria submersa pela construção de uma barragem. Ao conversar com as pessoas que teriam as casas inundadas pelo novo curso do rio, em outro Estado, o roteirista ficou comovido. E esta é uma das questões abordadas pelo filme.
No município onde se passa a história, isso aconteceu, com o rio cobrindo até a torre da igreja. Com a quantidade de água diminuindo e o rio recuando devido à falta de chuvas, a ponta da igreja começa a aparecer. E este fato vai tocar profundamente a avó de Gugu. Ao ver a torre, ela começa a gritar pelo nome da filha, já falecida.
Gugu vai percebendo que a avó começa a perder a memória recente, enquanto lembra de fatos mais antigos. Ao mesmo tempo em que a ponta da antiga torre da igreja começa a aparecer e as ruínas da cidade ficam visíveis, a memória da avó vai se perdendo. Sendo ela sua maior referência familiar, o menino enfrenta o desafio de ficar de olho na avó ao mesmo tempo em que teme perdê-la. Este drama, difícil para um adulto, ganha ainda mais intensidade pela idade do protagonista e, neste ponto, vale ressaltar o talento e a segurança que Yuri Gomes conseguiu transmitir em sua atuação frente à câmera.
Lázaro Ramos revelou que gosta de construir seus personagens coletivamente, em diálogo com as pessoas no set. Ramos contou ainda que o fato de trabalhar com o diretor Allan Deberton partiu dele mesmo e começou em uma edição anterior em Gramado. “Quando assisti ao filme ‘Pacarrete’, no Festival de Gramado, fiquei enlouquecido. Fui atrás do Allan e disse: no próximo filme que você fizer, quero participar”. “Pacarrete” foi o grande vencedor do Festival de Gramado em 2019, ganhando oito Kikitos.
Deberton retornou a Gramado em 2026 com “Feito Pipa”, um filme sensível e tocante, representando o Nordeste. Enquanto em “Pacarrete”, a protagonista era uma mulher amante do balé que se sentia deslocada na cidadezinha em que vivia, agora o foco é em crianças queer do sertão.
A questão da memória e do patrimônio de vidas e comunidades também entra no roteiro. A arte é um elemento capaz de ressignificar as lembranças, seja pela música, pelas fotografias ou pela dança, fazendo sinapses com o afeto. E o cineasta conduz esta história lindamente.
“Feito Pipa” saiu com quatro Kikitos (Melhor Diretor, Atriz para Teca Pereira), Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos, Melhor Filme pelo Júri Popular e Menção Honrosa para Yuri Gomes.
Nosso Segredo
Uma família negra vive o luto pelo pai. O menino da casa, interpretado por Efraim Santos, começa a ouvir sons do andar superior da casa, parte ainda em construção. Fatos estranhos ocorrem, como tremores e lama escorrendo pelas paredes, o que dá um tom de suspense à narrativa. Este é o ponto de partida de “Nosso Segredo”. Escrito e dirigido por Grace Passô (MG), o filme recebeu os Kikitos de Melhor Filme, Melhor Fotografia par Wilssa Elsser e Melhor Direção de Arte para Lucas Osório no 54º Festival de Cinema de Gramado.
O júri é soberano, mas vale destacar o excelente trabalho sonoro feito pelo engenheiro de som gaúcho Tiago Bello, incluindo os ruídos misteriosos no espaço em que a família vive. Ele já trabalhou em vários longas realizados no Rio Grande do Sul, como “Raia 4”, “Tinta Bruta”, “Hamlet”, “Rifle”, entre outros. Não seria uma injustiça se ele tivesse recebido um kikito nesta categoria.
A narrativa se passa majoritariamente dentro da casa, tendo poucas cenas externas. A casa, em um local de periferia, serve como local de abrigo e afeto, mas também de fugas. Alguns assuntos são evitados, mas estão presentes de forma latente, entre eles o sentimento de ausência e o racismo.
Algumas sequências realizadas externamente remetem a personagens que não tem medo do diálogo. Uma delas é a que começa o filme, com o filho mais velho, que trabalha como motorista de aplicativo, vivido pelo ator Robert Frank, e conduz um cliente simpático, mas enigmático, interpretado pelo músico baiano Mateus Aleluia. Em outro momento, o filho jovem, vivido pelo ator Flip, conversa em uma festa com uma amiga que lhe dá conselhos, encenada pela cantora Tássia Reis.
“Muitos artistas que estão no filme também são músicos”, disse a diretora durante do Festival de Gramado. “Tanto Mateus Aleluia quanto Tássia Reis são arquétipos de mentores, que preparam os personagens para o que virá”, revela Grace. Outra atriz que também é cantora e está no elenco é Jéssica Gaspar, que canta em determinado momento do filme em uma cena poética.
Estas escolhas foram algumas das reveladas pela diretora Grace durante o Festival de Gramado, durante debate aberto ao público. Mas outras ela deixa em aberto. Sobre um mistério no segundo piso da casa, ela prefere deixar a interpretação livre para o espectador.
O resultado final, em um primeiro momento, causa estranhamento e o desejo de entender metáforas. E é desta maneira que a cineasta conduz a história, sem medo de momentos contemplativos e algumas surpresas.
É um longa-metragem que foge completamente de fórmulas tradicionais, mas, ao mesmo tempo, valoriza a ancestralidade. A narrativa de “Nosso Segredo” flui em uma casa lúgubre, com algumas sequências em um quintal onde o elemento água se faz presente e reforça a sensação de uma necessária renovação espiritual e emocional nas reações de cada membro da família frente à finitude.