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Publicado por em set 9, 2026 em Destaque |

54º Festival de Cinema de Gramado – Minhas impressões, de Victor Souza

Mesmo sendo um cinéfilo da região metropolitana do Rio Grande do Sul, nunca havia ido ao Festival de Cinema de Gramado. Dados os custos que a cidade exige, decidi que só iria no evento se me pagassem. Isso se realizou em partes, estive como júri da crítica, com os custos de estadia e alimentação cobertos, ainda que sem um cachê pela função prestada. Fiz questão, neste texto, de passar por todos filmes que assisti no festival, afinal não se sabe se haverão outras oportunidades de serem exibidos ou discutidos devidamente, dentro do contexto em que foram apresentadas ao público. Faço aqui meu trabalho de testemunha ocular.

Antes da abertura oficial, no dia 14 de agosto, haviam sido realizadas as sessões dos quase trinta curtas estudantis e universitários, que, possivelmente por uma questão de logística, ficam fora da “janela oficial” do festival. Cabe destacar que essa iniciativa de exibir essa categoria de filmes no festival enriquece a seleção, dando um panorama das produções feitas em contextos formativos e seria interessante se houvesse uma forma de integrá-los ao calendário oficial do festival. 

É com Antártida, de Bruno Safadi, exibido fora de competição, que os trabalhos são abertos no 54º festival. Se espera que um filme de abertura introduza, de alguma forma, o imaginário que vai guiar as obras dali em diante. Antártida faz isso de uma maneira problemática. Acompanhando uma equipe de pesquisadores em uma base brasileira no continente gelado, o longa parte de uma violência sexual contra uma das pesquisadoras e inicia uma investigação encabeçada pela personagem de Andréa Beltrão. Trata-se de um tema delicado, cujo roteiro escrito por Cláudia Jouvin não consegue dar conta da sutileza necessária para a violência envolvida. Assume-se uma abordagem de investigação, de “quem-fez-isso”, porém o acúmulo de subtramas das personagens secundárias muitas vezes desvia do seu foco, deixando a personagem vítima da violência, interpretada por Marina Ruy Barbosa, em segundo plano. Nem reativa e nem confrontativa, apenas uma personagem-vítima que permite que a trama aconteça. Essa falta de cuidado transborda para todas as problemáticas que o filme se interessa, como relacionamentos abusivos, frustrações masculinas e abuso de autoridade, fazendo com que o tema importante vire uma moldura para o que realmente importa: divulgar os novos complexos de estúdios da Globo, voltados para cenários digitais grandiosos. Essa incongruência destaca muito mais estes aspectos problemáticos da trama, soterrando algum tipo de deslumbramento com a paisagem gelada, que não se torna nem opressiva, apenas um fundo literalmente branco para alguns conflitos tristemente mal elaborados.

Aqui se coloca o que vai guiar grande parte da seleção: a importância dos temas e a dificuldade de trabalhá-las de forma orgânica ou instigante. Essa questão se faz mais visível com os longa-metragens brasileiros, mas não só. Antes de chegar lá, convém passar pelos outros filmes selecionados das outras categorias. 

Os curtas gaúchos

Foram dezessete curtas. Seriam dezoito, porém A Vaidade é a Última que Morre, de Natália Zambon, foi desclassificado depois de já ter sido anunciado entre a seleção e impresso no catálogo e na programação. Em um olhar geral, a seleção de curtas contou com pessoas bem jovens dirigindo, com muitos dos filmes realizados no contexto da graduação, algo que deu um certo ar de mostra universitária, o que pode se considerar para o bem e para o mal. 

No primeiro dia, primeiro bloco: Procura-se Ator, de Airton Tomazzoni e Laura Lautert, pensa o cinema como escapismo a partir da relação de um jovem pcd cinéfilo, seu avô imaginativo, sua mãe rígida e uma amiga que não escuta mas observa seu entorno sempre reflexiva. Um curta que aposta demais na dinâmica entre essas personagens, se por um lado isso demonstra a confiança que o filme tem na força dessas personagens inicialmente frágeis, existe uma simplificação nessa construção. Amarrando as referências cinematográficas (importantíssimas para avô e neto) de maneira pouco inspirada, deixando o drama, que é construído de forma bem direta e descomplicada, mais frágil. 

Claudete, de Gabriela Kopp, é ao mesmo tempo uma carta de despedida, de superação e de incompreensão feita para a própria mãe. Um curta que não disfarça o tom fúnebre, mesmo quando enfoca aspectos mais vibrantes. O ritmo ditado pela narração melancólica e imagens douradas propõe um transe, porém em dado momento o curta não encontra por onde percorrer, predomina a noção de ser uma homenagem muito particular. Os elementos conceituais parecem serem evocados mais por sua beleza, como a figura com flores no rosto, ser assombroso e desconcertante, perdido em uma lembrança boa. 

Coisa Ruim, de Lucas Tergolina, é uma anedota autopsicanalítica. Diálogos que possivelmente surgiram no banho e se converteram em um curta que não sabe muito bem o que fazer visualmente com o que tem. Se destaca a fonte dos créditos, talvez onde resida o verdadeiro deboche. 

Grão, de Gianlucca Cozza e Leonardo da Rosa, teve uma passagem comentada pelo Festival de Tiradentes deste ano. Um filme que, comparado aos demais da seleção, trabalha já com uma grande maturidade os aspectos narrativos e técnicos. Dispersando bem seu tema em dimensões simbólicas e sensoriais. A trilha sonora de funk proibidão, por exemplo, demarca tanto uma sexualidade reprimida de um jovem ferrado, quanto a busca desse jovem por um som onde pode torar mais o seu grave, cultura litorânea classe média decadente. O indivíduo e o social são elaborados a partir de uma preocupação formal, que, ainda que bastante festivalcêntrica, revela de um jeito criativo o conflito particular, íntimo e pesaroso, elementos que parecem ser ponto central dos temas importantes que rechearam Gramado. 

Nesta mesma sessão teve ainda Batidão de Botas, de Camisla, Daniel Galuppo, Esther Costa, Maria Eduarda Bandeira e Stella Mahle. Animação colaborativa, menos sobre autodescoberta do que sobre autoficção. Uma sensibilidade autêntica maluquinha de internet que é legal que ocupe espaço em um festival deste tamanho.

Segundo bloco: Banho Maria, de Gabriel Faccini, ambienta bem a sua jornada introspectiva. Uma jovem que decide ir para um parque aquático no meio da semana e não para o trabalho. Outro curta que dialoga com um escapismo, mas os delírios de esculturas ganhando vida dão uma dimensão de espaço alheio ao tempo, uma pausa existencial. A beleza desses planos contemplativos ainda sim não supera o breve diálogo entre a protagonista e um menino de aniversário, que revela a humanidade desse encontro efêmero. 

Raidinalha, de Marco Arruda, demarca um sentimento bem contemporâneo de um distanciamento existencial, uma melancolia frente ao colapso climático, misturado com uma busca indefinida por um lugar no mundo. Isso tudo a partir de uma animação que trabalha a pixel art de forma instigante, explorando o detalhamento limitado da mídia ao criar os cenários e também se utilizando de um trabalho sonoro imersivo, que evoca todo um clima de jogar video-game em uma arte chuvosa, enquanto os amigos não respondem no chat. Um trabalho de destaque tendo em vista o histórico do cinema gaúcho com animação, nesse caso explorando um olhar bem particular e com potencial de ressoar em um público de fora do circuito do cinema. É um filme que não se acomoda, ainda que trate de uma crise de estagnação. 

Manjericão, de Eric Pauli e Raphaela Serafim, saiu perdendo ao ser o filme seguinte. Apostando em uma abordagem dos tempos espaçados e relações silenciosas, exercita essa abordagem de cinema nórdico preto e branco para tratar da violência urbanística que o litoral tem passado a partir do cotidiano de um casal idoso. A concepção é pouco inspirada e o que fica é mais um esvaziamento dos planos, que não revelam muito. 

Fechando o dia de curtas gaúchos, Terra Bruta, de Allan Riggs e Guilherme Suman, segue o caminho que os diretores vêm traçando com tramas históricas, flertando com a ação e o filme de vingança. O trabalho de arte e de fotografia demarca um cuidado grande na produção, criando uma imersão visual que se difere de um certo cinema de imagem lavada que predomina atualmente, ainda assim não consegue trabalhar bem os conflitos que guiam a jornada do protagonista. Falta tempo para maturar as motivações para além do efeito instantâneo da raiva e, principalmente, refletir sobre as questões de masculinidade que o filme propõe, resultando em uma obra cujo impacto reside na beleza e não na revolta. 

Os curtas gaúchos seguiram no dia seguinte. Abrindo o dia com Estátuas também morrem?, de Thais Fernandes, é um filme internacional. Uma praça de estátuas soviéticas na Hungria povoada de turistas se torna um cenário interessante para refletir a respeito da memória que resiste na materialidade, ressignificada a cada geração. Um soterramento de pontos de vista, atravessamentos temporais que são bem ilustrados pelas vozes infantis dublando as esculturas agitativas do falecido país. Há um cinismo decadentista mas não tão pessimista quanto pode soar em um primeiro momento. O título, afinal, é uma pergunta. 

O Acumulador de Memórias, de Camisla, parte do coletivo que também realizou Batidão de Botas, é uma pequena explosão em stop motion de cores e texturas em miniatura. Uma curta caminhada de um catador de cacareco por experimentos visuais inventivos. Sem dúvida é bom quando o cinema gaúcho abraça o colorido e a criatividade artesanal. 

O Retorno, de Cesar Meneghetti, é uma bola fora. Ao acompanhar a visita do fotógrafo Mario Gianni a uma aldeia Yanomami depois 40 anos, o curta cumpre com todos os protocolos do olhar distanciado exotificante eurocentrado. O trabalho do protagonista, que já havia colaborado com Glauber Rocha e Pier Paolo Pasolini, não se faz visto na tela e sua rarefeita relação com a comunidade soa como uma visita de um amigo distante da família que quer se enturmar demais por algum interesse. Fotos são mostradas e trilhas solenes são tocadas, sem destacar importância mútua naquilo tudo. 

Drunken Car, de Brunella Martina, é o já recorrente filme de época dos anos 2000 e narra, a partir de uma ambiguidade não muito orgânica, um pequeno rito de passagem solitário, um amadurecimento silencioso. O plano da estrada entrando e saindo de foco e a jornada um pouco insólita da protagonista estabelecem uma instabilidade lynchiana, que ajuda a explicar que algumas coisas não precisam ser explicadas mas não se sente um tateamento mais palpável nesse mergulho de um passado próximo. 

Braço Forte, de Rubens Fabrício Anzolin e João Fernando Chagas, está dentro do universo autoral de Grão. Aqui também há uma maneira interessante de relacionar o indivíduo com seu ambiente, de quais formas lhe é permitido ser quem é. Como se constrói essa existência (ou identidade) a partir do tempo que se tem livre, da função que tem que cumprir e da roupa que deseja ter. Há aqui pitadas do cinema de Pedro Costa, solidão mergulhada nas sombras, e também um humor que surge da relação incessantemente violenta entre esses homens. 

O segundo bloco abriria com o mencionado A Vaidade é a Última que Morre, que ficou de fora da sessão. Um curta que dialoga bastante com o curta de Camisla, uma breve busca solitária em stop motion, mas ao invés das cores vibrantes abraça um tom mais funesto, ainda que termine com um encontro afetuoso. 

O bloco acabou abrindo com Elisete tem que casar!, de Gaby Buffon, que ganhou o coração do público na exibição. A comédia de Caxias do Sul acompanha uma jovem, interpretada pela diretora, que se revolta com a iminência do casamento e acaba indo para o convento. Assim como Drunken Car, aqui há uma reimaginação de época e uma jornada de autodescoberta, mas neste caso ao invés do distanciamento, o filme abraça as pequenas coisas que conduzem as personagens que sustentam aquele universo, explorando o humor caricatural, do exagero, das caretas dessas figuras. A projeção feita sem legenda nos momentos falados em italiano, algo que não era proposital, não comprometeu a relação com as situações, no fim das contas reforçaram as intenções nos diálogos mais expositivos. O curta tira o que há de melhor do núcleo cômico de uma novela de época das seis. 

Mizandrika, de Kali Breder, dialoga com uma visualidade mais rebuscada, contemporânea, com referências diretas à pintura barroca e ao cinema de luzes neon. O tom confessional da protagonista, uma travesti que acaba de matar um homem, segue um aspecto sacro do filme anterior dessa sessão, neste caso indo em direção à catarse estroboscópica da satisfação depois de um pecado. Um exercício visual dessa explosão sensorial de um acerto de contas, que finaliza pouco potente apesar de seu apelo. 

Por fim, O Véu, de Gabriel Motta, também propõe um terror com comentário social religioso, acerca das igrejas pentecostais explorando a crença dos desavisados. De fato o filme é isso, e o faz bem consciente do tipo de terror que quer ser, dialogando com tendências contemporâneas internacionais. A questão social aqui se fecha no conflito familiar, ou pelo menos é ilustrada por ele. A possessão com cara de paisagem, o comportamento desviante assustador, a fotografia fria do escuro e do desfoque, são as apostas constantes da A24 e Blumhouse. O final soa como uma maneira de extravasar algo, mas não chega a alcançar essa sensação, pois ainda quer corresponder a uma certa excelência. 

Houveram nessa seleção muitos filmes fora do eixo Porto Alegre e Pelotas. Parte disso pode se dar pela importância que este último tem tido no debate local, não só por ser berço do fazer cinema no estado, lá no início do século passado, mas também pela importância cada vez maior que a UFPEL tem tido na produção do RS atualmente. O resultado disso é o espaço dado à produção fora da capital, que permitiu que esse ano houvessem filmes de Caxias do Sul, Garibaldi, Santa Cruz do Sul, Rio Grande, Xangri-lá, Imbé, Tramandaí e Canoas. Esse olhar mais ampliado ao que se vem fazendo fora das principais cidades pode ter contribuído pro aspecto formativo que muitos deles têm, o que dá um caráter de recorte universitário mencionado antes. Isso permite que alguns tenham se destacado por possuírem uma abordagem firme no que buscam, como por exemplo os filmes da Saturno Filmes ou Raidinalha, produzido pela Otto Desenhos Animados, já consolidada no campo da animação. Outros já parecem se deslocar pelo tateamento, que se faz visível pela fragilidade da maneira como executam ideias visuais e como abordam suas temáticas, caindo no pecado do filme de formação que é muitas vezes não dar conta de todos os elementos que se dispõe a trabalhar. Talvez essa dimensão formativa possa ser ainda mais reforçada com um aprofundamento no repertório desses e dessas realizadoras, algo que pode ser permitido através de mais salas de cinema alternativas e descentralizadas da capital.

Os longas gaúchos

As exibições dos longa-metragens gaúchos se deram a partir da segunda-feira, sempre às 14h, com reprise na manhã do dia seguinte. Mesmo com essas reexibições, dois dos cinco filmes acabei não conseguindo assistir, por isso ficarei devendo as minhas impressões. Um deles foi o vencedor do prêmio de Melhor Filme dos júris oficial e popular, Filhas da Lua, de Tatiana Sager. O outro foi Morro da Cruz – Memória Popular, de Crystom Oliveira Rodrigues. Ambos documentários que acompanham grupos marginalizados e periféricos, com relatos particulares de quem vivencia às realidades abordadas. Filmes que poderão ser assistidos em sessões especiais de retrospectiva do festival, garantidas pela Cinemateca Paulo Amorim, por exemplo, mas que para ganharem uma distribuição comercial, certamente necessitam do prestígio de um prêmio. Quanto aos outros três filmes dessa mostra que pude assistir, todos se mostraram muito diferentes entre si. 

Partindo de Remanente – Voltagem, de Kapel Furman. Este segue à risca elementos que se associam ao Fantaspoa, festival de cinema fantástico que o produz, e que ocupa todos os cinemas de circuito alternativo de Porto Alegre por um mês inteiro. As produções exibidas no festival, especialmente os longas, muitas vezes seguem uma linha do “filme B”, o gore e o exploitation, nicho que possui um público fiel e cativo, que costuma lotar sessões independentemente do que seja exibido. Remanente trabalha com esses elementos a partir de um terror bastante inventivo, próximo a ideia do filme B no sentido de reaproveitar materiais para cenários, remendar, recortar, mas evidencia um domínio de como fazer funcionar esses elementos sem cair no balaio da “tosquice”. A violência gráfica surge pontualmente, atendo-se mais ao aspecto fabular da mitologia que cria, a partir da proximidade de elementos de ocultismo, tecnologia elétrica e multidimensões. Tudo isso sublinhado por uma trama envolvendo dois motoristas de ambulância, com visões diferentes de mundo e criam dívidas com um ser do mal. Um filme bastante autêntico e sem cinismo, e que por isso se destacaria em uma seleção do festival que o produz. 

Com a comédia infanto-juvenil A História Mais Triste do Mundo, de Hique Montanari, também se nota uma preocupação sincera em construir um pequeno universo, com suas lógicas particulares. Acompanhando um jovem desajustado que é vendido pelos pais a um circo, o filme propõe uma certa paródia melancólica das injustiças da vida, um tanto aos moldes da série de livros Desventuras em Série, de Daniel Handler, onde o mundo adulto contamina pessimisticamente a mentalidade infantil. O longa gaúcho é na verdade baseado no livro de Mario Corso, psicanalista, que traça essa jornada repleta de questões simbólicas não muito sutis. O roteiro adaptado por Montanari reforça isso e traduz esse universo de desencantos fantasiosos abraçando suas limitações técnicas como a de um filme B tal qual Remanente, mas faz isso com menos êxito. Se desenvolve pelas descobertas desanimadoras por parte do protagonista, mas em dado momento torna-se repetitivo. As saídas que seriam criativas não se renovam. O ápice criativo sem dúvida é o personagem do leão, um fantoche/fantasia que permite uma interação instigante com a criança. Já os trechos animados desperdiçam uma oportunidade de explorar uma atmosfera desafiadora e menos televisiva. Pode-se imaginar que o coletivo responsável por Batidão de Botas e O Acumulador de Memórias teriam explorado visualidades mais ricas com os mesmos recursos. A segunda metade, filmada nas ruas de Porto Alegre, injeta energia em um filme cansado. Sua montagem no momento de encontro no meio da faixa de segurança é divertida assim como a iluminação da cena noturna na Redenção é o momento que o longa melhor traduz os estados de transformação daquele personagem. 

No fim das contas, o longa gaúcho que assisti em Gramado que mais me cativou foi Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido, de Luciane Fagundes. Um documentário meio acerto de contas, meio pedido de desculpas. Ainda que bastante quadrado na sua forma documental (os depoimentos, as cenas de arquivo, os passeios por cenários mencionados), ele floresce justamente nesse encontro de sensibilidades entre uma filha constantemente ressentida e arrependida ao mesmo tempo, com seu pai, ator apaixonado e patriarca problemático. Ele, orgulhoso de performar gauchice, ícone do movimento tradicionalista dos anos 1950, ela, jovem formada pela contracultura dos anos 1960, contra as amarras tradicionais. Ele, declamador do sotaque fronteiriço, ela, carregada de um portoalegrês bomfiner. Demarca bem esse conflito geracional e de personalidade, e é interessante que mostre Darcy por materiais midiáticos, dos programas e filmes que participou e não tanto por materiais caseiros. Entre o ressentimento e o arrependimento há uma aceitação. Não se vê uma busca em encontrar um novo Darcy, mas sim refletir sobre como essa figura foi um ícone de um movimento mais que um pai, quem sabe. Os contemporâneos dele contam como ele era gaúcho e esse dado diz mais sobre a paixão de Darcy em vestir um estilo de vida do que exaltar sua decisão, o que cairia em algum tipo de elogio ao tradicionalismo. Esse movimento cultural organizado pela elite campeira, para Luciane, é mais um dos hiperfocos de seu pai. É central essa dimensão do “meu pai era uma figura” e é interessante descobrir o trabalho de Darcy, suas declamações potentes, mesmo que essa potência não se veja nas imagens. Há boas cenas de arquivo, filmes restaurados e outros não, mas que permite acompanharmos de relance um período do cinema gaúcho. É um documentário sobre uma relação familiar, frequente no cinema contemporâneo, e a diretora consegue se colocar como condutora mas não como ponto central. Ainda que ela demonstre ser também uma figura. Se abre mão do conflito particular e se aceita o espetáculo público, sem muita cerimônia. 

São longas não exatamente instigantes, cada um à sua maneira corresponde a uma demanda específica que permita uma circulação mínima. O primeiro ao nicho do cinema de gênero, que sempre encontra festivais e janelas de exibição; o segundo e o terceiro a uma circulação mais televisiva eu diria, com um recorte etário também bastante colocado. Tematicamente acabam tendo uma dimensão ampla. Mesmo o último, que caso o espectador consiga ultrapassar a dimensão cultural gaúcha que predomina o filme, se encontra uma questão familiar e geracional bem didática. Os outros dois documentários infelizmente deixados de fora da análise parecem corresponder a uma demanda nacional dos filmes que acompanham grupos fora da centralidade classe-média do cinema brasileiro circulante. Diferente dos curtas gaúchos, sente-se deixado de fora um aspecto mais inventivo, que ouse brincar mais com a linguagem e os temas, mesmo que de forma tateante. Talvez incluir longas-metragens de cineastas jovens possa dar uma complexificação maior na seleção gaúcha, que soa um tanto empobrecida se comparada às outras seleções.

Os curtas brasileiros

Segunda-feira, 17 de agosto, também começaram as exibições de curta-metragens brasileiros, às 20h, depois dos longas brasileiros. Todas as sessões com três filmes, fechando quase uma hora por sessão. Neste recorte nacional, apenas um gaúcho. 

Shibal, de João Rubio Rubinato, abriu os trabalhos de maneira empolgante. Acompanhando um gravurista interpretado por Tavinho Teixeira em uma série de desencontros e frustrações por São Paulo. Filmado em 16mm, o filme é bastante vibrante, assim como o trajeto repleto de incertezas de seu protagonista. Personagens e situações surgem e saem de cena, empilhando rumos para um personagem desencontrado e que acaba soterrado. Percebe-se um diálogo forte não só com a cidade mas com um imaginário da São Paulo explorada no cinema, da realidade onírica, das jornadas labirínticas e cheia de figuras vivendo suas próprias jornadas. Uma proposta cinematográfica rica, tanto no sentido do imaginário que suscita, quanto no capital dos envolvidos, afinal não é todo mundo que pôde sempre filmar em 16mm ou que tenha se inserido desde criança no meio cinematográfico através de contatos bastante privilegiados. Mas, superando esse juízo de valor, é possível ver um filme que usa desse ponto de partida mais privilegiado para exercitar um cinema bastante livre e criativo.

É estranho que este filme tenha sido seguido de As Gêmeas, de Vanessa Aguiar. Curta que se equivoca na construção de uma situação delicada e na sua execução. Já de início, uma falha objetiva do festival, que exibiu uma cópia com aviso de não estar finalizada. Algo que por um momento depois da sessão até mesmo se discutiu se era uma decisão conceitual, para denunciar empecilhos de produção. Esse erro do festival porém não é tudo o que compromete, mas sim a maneira como traz uma narrativa de abuso infantil a partir de uma interação bastante mal elaborada, onde se vê o registro das atuações tão dissonante do seu teor, que parece até mesmo propor uma virada cômica em algum momento. Mas ela não acontece. Na verdade, o que acontece é uma revelação que confirma o que estava dado de início, mas sem nenhum efeito que não seja o da confusão. Sua decupagem mais anula a criança vítima do que a protege de ser exposta nessa narrativa. Sua gêmea cumpre uma função ainda mais nula, de nos guiar até o desfecho impactante, que não acontece pois está imerso em equívocos. 

Graxa e o Zepelim, de Camilo Soares, fechou essa sessão. Se utiliza de uma estética interessante, de um futuro pós-apocalíptico de sucata, um retrofuturismo que surge a partir da figura decadente do zepelim. Graxa, músico de Recife, serve de narrador sobre a passagem do zepelim e como a aeronave impactou os moradores locais. Sendo ele mesmo de alguma forma um resultado dessa passagem. A fotografia preto e branco é inspirada, especialmente no trecho a respeito da origem do apelido Graxa dado a Angelo Souza, com ares de cinema mudo embalado pelo rock lo-fi estridente do artista. Essa explosão logo se acalma e o filme se põe linear demais dentro da profusão de temas que apresenta. Não ressoa tanto as questões que aborda, mas sim sua sonoridade particular.

No segundo dia, nos deparamos com talvez uma das sessões de curta mais consistentes do festival. Um Passeio, de Thalles Cabral e Fernanda Rocha, é principalmente um filme de Chris Couto. A sua presença é o ponto central de tudo. O singelo date entre uma senhora e um jovem pago ganha corpo em Couto, que consegue transitar entre a incerteza, a insegurança e o desapego. Sua redescoberta de uma liberdade afetiva não chega a cair na armadilha de fazê-la uma solitária. É uma personagem comunicativa e disposta a vivenciar o que surge pela frente. A conclusão de seu passeio ganha mais dimensões se pensarmos em como essa sua liberdade vai contra sua certa fragilidade inicial, e que logo se mostra apenas uma falta de hábito. O carisma do filme é o carisma de Chris Couto e, se não fosse ela talvez a obra perdesse grande parte da sua desenvoltura, já que imageticamente está totalmente preso a ela. Mas também pelo jeito a obra não existiria se ela dissesse “não” para o papel. E o “sim” para o curta é o mesmo “sim” para a versão longa-metragem, que se planeja tirar do papel nos próximos anos. 

Fúrias, de Nica Maleoa, único gaúcho dessa categoria, é outro curta com vislumbres de se metamorfosear em longa. Isso em partes se sente no filme, que concebe uma Porto Alegre futurista com várias particularidades inspiradas em ficções científicas distópicas de hipercontrole social. Nota-se uma preocupação em conceber um universo regido por regras bem estabelecidas, parodiando vários aspectos da ideia da “cidade da inovação” que a capital gaúcha ridiculamente levanta e tudo isso parece querer transbordar no curta. Assim como a relação amorosa entre as senhoras protagonistas, vividas por Áurea Baptista e Denizeli Cardoso, que se constrói em um companheirismo baseado no desejo e na camaradagem anti-sistêmica e que não se atém a motivos ou razões de ser assim. Esses fundamentos do mundo e do relacionamento criado pela obra por vezes soam apressados para caber dentro da duração, mas algumas decisões por caminhos mais abstratos são interessantes, como a resolução final através de um bloquinho de carnaval destruidor de drones. As paisagens da cidade enfeitadas com prédios falsos digitais e as máquinas voadoras filmadas como um sci-fi sessentista fazem parte do charme que o filme carrega e que espero que leve isso ao longa.

A sessão encerra com Pão Doce, de Wesley Gabriel Silva Santos, um curta de muita singeleza e um dos poucos a ter a questão do trabalho como base, mesmo que a grande sensibilidade esteja na relação pai e filha que o filme ilustra. Um pai que precisa trabalhar sem parar no aniversário da sua filha, que está o acompanhando no serviço. É na simplicidade da trama que se encontra o caminho para elaborar seu comentário a respeito da exploração sofrida por grande parte da classe trabalhadora. É de fato tocante a maneira como o seu protagonista, interpretado por Francisco Gaspar, carrega em si um pesar crescente, mistura de cansaço com uma pressa calejada. Questões que vão se potencializando conforme a repetição vai se fixando nesse dia do personagem, mantendo-o preso da roda que faz a economia do seu patrão girar. Há, entretanto, nessa simplificação, uma fé inabalável no aspecto humano de seu protagonista, um pai amoroso e que se sacrifica e isso de alguma maneira fez com que o filme deslizasse um pouco. Há uma falta de defeitos. Talvez exista uma certa passividade, mas ela serve para ilustrar a sua dependência por aquele emprego. Também como sua preocupação de proporcionar um dia legal para a filha, na verdade até bem compreensiva, comportadinha e participativa, não chega a criar atrito entre ambos. Assim, eliminando o fato de que os trabalhadores entre si também têm conflito de interesses e é preciso conscientizar-nos uns aos outros para que seja possível nos organizarmos, o papel do filme de expor a oposição entre empregado e patrão fica mais fácil. O efeito emocionante, assim, se atinge de uma forma mais fácil. O que não é exatamente um problema, pois deixa gritante o posicionamento que toma nessa disputa, mas esse caminho da emoção, estampada na cara do protagonista engolindo em seco sua impossibilidade de negociar com o patrão, não me parece tornar a reivindicação do fim da escala 6×1 mais potente. De qualquer forma, essa escala precisa urgentemente acabar. Talvez seja o filme mais inesperado em um festival voltado para os patrões. 

Os curtas de quarta-feira tiveram uma consistência interessante, dado o fato de serem bem diferentes entre si. Divino: Sua alma, sua lente, de Clea Torres, Gilson Costta e Divino Tserewahú, documenta brevemente o trabalho deste último, cineasta da etnia Xavante, que vive em Mato Grosso. A partir de relatos do diretor sobre imagens captadas por ele mesmo e cenas de arquivo de seus vídeos e filmes, o curta traça sua trajetória pelas suas impressões. Para além da dimensão de explicar os aspectos culturais que permeiam sua visão de mundo a respeito da forma como capta suas imagens, existe também um interesse em estabelecer essa relação do homem com suas ferramentas de trabalho. A câmera na sua mão, o computador com o software de edição aberto diante de si. Um filme que leva a sério Divino enquanto um cineasta e torna evidente a importância de um artista indígena em se apropriar de ferramentas criadas a partir da exploração colonial. O cinema se mostra presente acima da dimensão antropológica que muitas vezes ganha centralidade em filmes feitos no encontro entre brancos e indígenas. É enriquecedor ver o cineasta explicando seu processo, como sua memória encontra as imagens que criou e suas impressões sobre o fazer cinema. É o olhar de um diretor de cinema a respeito das imagens que formam sua filmografia e que não são síntese de toda a cultura do seu povo, ainda que sejam parte dela. Fica, entretanto, um gosto de quero mais, de adentrar mais no processo e nas impressões artísticas de Divino. 

A sessão seguiu-se com A Menina que Queria ser Pedra, de Jackson Abacatu, animação stop motion de desenhos feitos em páginas de livros e que narra um encontro entre um garotinho e a menina do título, que queria ser pedra. Essa interação é simples, personagens que se conhecem e trocam entre si suas visões existenciais. As composições dos desenhos que ilustram a história são criativas, se utilizando bem das páginas cheias de texto que deixam por vezes bem evidente o seu conteúdo escrito. Há, nisso tudo, um desapego com as palavras escritas, símbolo do raciocínio humano, quase como uma decisão transcendental como a da menina, de superar a sua condição racional e animal. O risco no papel promove uma textura própria. Poderia ser um filme mais mineral ainda, caso o motivo da interação do menininho com a protagonista fosse menos um interesse romântico (demasiadamente humano) do que existencial, de tentar entender mesmo o que é a vida de uma pedra. Tudo se dá de forma breve e sem catarse, assim como a passagem pela terra. 

A sessão fechou com Pique-Pega, de Mia Lima Rocha, que traz uma situação mal resolvida entre duas mulheres durante uma festa de apartamento. Assim como Um Passeio, o curta se sustenta na base de suas atrizes, Carol Duarte e Malu Galli, que abraçam o bate bola da situação com uma desenvoltura bastante natural para as duas. O filme em si não dá muitos mais elementos para contribuir nessa interação, as acompanhando e tentando mantê-las juntas no plano, enquanto ambas se repelem. O curto flashback fragmentário inicialmente sugere uma complexificação maior daquele encontro, mas não se desdobra em nada além de um tema a ser explorado. Um curta que mesmo seguro das habilidades de sua equipe, não sabe muito o que fazer com isso. Serve, porém, como um bom portfólio.

A última sessão de curtas, quinta-feira, também se deu com filmes bem diferentes entre si. Revelação, de Gabriela I. Gaia, é uma comédia debochada e escrachada. Um pseudo-found footage, com pitadas de The Office, quase se vê um piloto televisivo, mais do que uma esquete de internet. De forma bem rápida e não muito comprometida, se coloca um contexto complexo que se estende para além da situação que traz na sua duração. Um mundo onde se consolidaram empresas dedicadas à chás de revelação de gênero de bebês, e onde todo mundo parece ter perdido o bom-senso, abraçando a completa despirocagem. Esse deboche, que extrapola estereótipos e absurdos contemporaneamente normalizados, tem ecos do camp, da sensibilidade queer. Se aposta no exagero das normas sociais, para comentar a falta de sentido do foco dado ao gênero de uma criança recém nascida. Sabendo que isso se trata de uma construção social, que se modifica ao longo dos anos, é engraçado como evoca isso propondo um apocalipse tecnológico causado pelo nascimento da primeira criança sem gênero. Com certeza é um filme que dialoga mais com quem já está imerso na compreensão desse absurdo e no deboche proposto, mas isso não parece ser uma pregação para convertides, mas sim uma certa piada interna exposta para quem está de fora, um tanto ao estilo John Waters. O que causa ou desconforto ou uma batidinha silenciosa com a ponta dos dedos. 

Diferente do humor quase pastelão, Mulher Papaya, de Camila Tarifa, é um filme bastante sério. O desejo de uma mulher da terceira idade surge de maneira dura, febril. Percebe-se uma maldade na sua protagonista, interpretada por Magali Biff, causada pela frustração e o represamento do orgasmo que nunca se concretizou. Se abraça esse aspecto um pouco cruel da personagem, sua ânsia por encontrar um desejo em si a faz assediar sua cuidadora, explorando seu toque durante o banho, por exemplo. É incômodo acompanhar essa personagem na sua descoberta pois em alguns momentos soa como se justificasse sua índole a partir desse gozo represado. Mas isso dá ao curta uma dimensão complexa, que conduz a uma conclusão bastante interessante e criativa visualmente. Finaliza como um filme de vingança de certa forma. Algo que se vê no gesto da personagem de virar seu marido meio vegetivo para ela antes de explorar seu corpo sozinha e atingir finalmente um orgasmo explosivo que ele nunca soube contribuir. Ela geme e a casa em que vive seus dias derradeiros finalmente vibra.

Por fim, o último dos curtas brasileiros exibidos, Maior que a casa toda, de Fabiano Barros e Neto Cavalcanti. Este aposta na singeleza de suas situações, acompanhando dois irmãos que vivem com as avós e cujo conflito se dá por um chinelo recém ganho e que é arrebentado sem querer. Tudo se desenrola de forma segura, estabelecendo essa relação entre irmãos que se preocupam entre si e riem um do outro, assim como as avós que são figuras cuidadoras e também preocupadas. Um filme de muitas preocupações, que parece comentar sobre a fragilidade que esperamos das personagens, mesmo que não seja este o ponto central. São personagens que simplesmente queriam aproveitar um presente e acabam criando um peso na consciência para resolver. Na relação com pessoas com necessidades especiais, como no caso de um dos irmãos, muitas vezes o medo e a preocupação exagerada podem minar a complexidade dessas pessoas. O curta deixa dito que, independentemente do contexto que se vive, é preciso estar disposto a resolver os próprios pepinos, por menores ou maiores que sejam. Na sua feitura, nota-se que não se buscou grandes pepinos para serem resolvidos, mas o aspecto humano aqui ganha grande potência, simplesmente por serem tratados de forma sincera. 

Os longas brasileiros

Muito se falou entre as pessoas do festival, especialmente as gaúchas, sobre a falta de filmes do estado na seleção nacional. Mesmo possuindo uma categoria própria, se percebe que essa não inclusão parece corresponder a uma certa vontade do festival de favorecer filmes com figuras famosas no país todo e fomentar a experiência do tapete vermelho, que em alguns momentos ganha mais centralidade que os próprios filmes, alimentando a sede dos turistas de Gramado por atrações mais espetaculosas. O acesso ao tapete se dava a partir das 17h, uma hora antes da sessão, às 18h. Nesse intervalo haviam as entrevistas com o elenco e equipe, exibidas nos telões espalhados pela rua coberta, assim como o momento de gravar as mãos na pedra que vai fazer parte da calçada da fama gramadense. Não se pode exatamente confirmar que a ausência gaúcha entre os longas é por conta disso, até porque houveram filmes sem grandes estrelas na seleção principal (uns dois, na verdade). Mas se percebe também que não houve uma preocupação tão grande em trazer um panorama instigante da produção nacional contemporânea, ainda mais incluir um filme local neste radar. Ficou central o interesse em filmes de caráter bastante comercial, com carreiras mais garantidas. 

O primeiro longa na competição brasileira foi Feito Pipa, de Allan Deberton. O filme cearense acompanha uma criança queer, Gugu, que vive com sua avó gente boa, vivida por Teca Pereira, e tem uma relação problemática com o pai mente fechada, interpretado por Lázaro Ramos. Tudo se desenvolve neste mundo colorido e vibrante de maneira bem espontânea, a partir do carisma explosivo de Yuri Gomes, que dá vida a Gugu. Um jovem ator que consegue transparecer toda a jornada introspectiva de uma criança bastante extrovertida. Sua conversão de um menino sapeca para um melancólico segue de perto o mergulho de sua avó no Alzheimer e as tentativas de aproximação do pai problemático. Ainda que a personagem de Teca tenha uma energia própria que se faz visível na primeira metade, infelizmente a personagem cai no buraco negro dos personagens idosos que é o de desenvolverem demência e tornarem-se um fardo. Isso para jogar o pequeno protagonista na incerteza de uma vida sem ser aceito do jeito que é e ter que construir uma relação forçosa com seu pai. No final das contas, sua relação paternal é o que tem contornos mais complexos, afinal, o pai mesmo disposto a amar seu filho, não consegue mesmo aceitá-lo do jeito que é e este amor manco não é suficiente para Gugu. No geral o filme não se arrisca muito na maneira como desenvolve seu protagonista, ainda que seja uma figura bastante instigante só por ser uma representação rara de criança abertamente queer. Não se busca nada muito além de reforçar a sensação de que as pessoas devem ser amadas do jeito que são, algo que se sustenta no filme pois tem um protagonista fácil de abraçar. O efeito final da fuga (imaginária) existe pois deixa justamente essa relação de pai e filho em aberto, revelando uma busca por autonomia do pequeno, buscando ser aceito sem dar margem para acordos. Infelizmente a avó perde bastante espaço ao longo deste percurso.

Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, carrega muito menos carisma que Feito Pipa. O longa é sério, solene e até mesmo sisudo. Aborda as tentativas de provar que um homicídio cometido contra uma mulher tratou-se de uma violência de gênero, um feminicídio. Entrelaçando o ponto de vista de uma repórter, Débora Falabella, e uma advogada, Naruna Costa, o longa compõe essa investigação de maneira excessivamente sóbria. O juridiquês de uma não vê contraponto na cara de pau jornalística da outra, ambos os pontos de vista se reafirmam continuamente. Nessa reafirmação constante do seu discurso com uma abordagem rígida, não há muito no filme que instigue a buscar as nuances desse caso. Claro, a proposta é afirmar o que já é sabido por quem se preocupa com isso: algumas violências existem puramente por se tratar de um homem contra uma mulher. Mas ao sublinhar isso, o filme apela para diálogos anacrônicos, que perdem muita força a partir de uma direção de arte pouco interessante, faltando uma preocupação séria em ambientar esse mundo dos anos 1970, onde os debates da segunda onda do feminismo ganhavam espaço. Nem mesmo os flashbacks conseguem nos aproximar da vítima, tampouco da relação das protagonistas com a mesma. Há um sabor de filme de streaming, aprovado pelo seu tema necessário. 

Chorão – Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes, me pareceu uma grande piada em certo momento. A cinebiografia do vocalista do Charlie Brown Jr. não consegue levar adiante nenhum dos elementos que garantiram à banda e seu frontman deixar sua marca no imaginário nacional, tudo se dá de maneira inorgânica e até mesmo risível. Um atropelamento de situações que não se desencadeiam, mas sim simplesmente existem porque é o que foi escrito pela Graziela Gonçalves no seu livro sobre o falecido companheiro. O skate, parte fundamental da cultura que permitiu florescer a banda, se reduz a uma cena pateticamente filmada, isolando os pés habilidosos de algum dublê do corpo de José Loreto, que surge finalizando as manobras em plano aberto. Loreto, coitado, é sabotado por essa incapacidade de estabelecer uma causa e consequência coerente nessa construção de personagem, mesmo com a entrega que disse ter tido para o papel. Seu Chorão é um homem imaturo e incapaz de assumir responsabilidades, além de se vender para a gravadora na primeira oportunidade, mesmo dizendo segundos antes que jamais faria isso. E pode ser que o vocalista tenha sido assim, mas o filme busca de alguma maneira justificar seu comportamento por ele ser assombrado por demônios. Antes esses demônios fossem literais para dar a obra alguma nuance. Para os fãs, as músicas aparecem quase na íntegra, entrecortando alguma passagem da sua biografia com cenas da banda tocando em estúdio. Tudo simplesmente aparece, as músicas nascem prontas, a sua relação com a música já nasceu com ele, o amor entre ele e sua amada acontece pois são duas pessoas que gostam de música, ele briga porque era brigão mesmo. O sucesso da banda fica em segundo plano, não se vê fãs ou o impacto cultural que tiveram. Não se ouve os outros integrantes do grupo para além do protagonista e Champignon, o baixista vivido por um jovem ator que parece ter usado barba falsa em algum momento. O tempo não passa, dos anos 1990 a 2013 tudo permanece igual. Exceto é claro pela barriga de Chorão, que cresce para demarcar sua decadência. Não há cocaína, apenas cerveja. Sua paternidade é mais um marcador da irresponsabilidade do protagonista. Um filme que se apoia no imaginário de um ícone mas não consegue elaborar suas questões para além de uma comédia romântica mal trabalhada. Me pergunto qual lóbi foi feito para garanti-lo na seleção oficial. 

Dessa forma as coisas ficaram fáceis para Leite em Pó, de Carlos Segundo, exibido no dia seguinte. Um filme que acompanha um protagonista também imaturo e com dificuldade de assumir certa responsabilidade. Ele está absorto na ideia de que tem algum talento para a música, o que não tem. O mergulho na cabeça desse homem interpretado por Vinícius de Oliveira instiga justamente por colocar suas ambições em um nível de incerteza. Tudo caminha incerto pelos cenários corriqueiros que surgem a cada decisão errônea e contraditória do protagonista. Há algo insólito e desconcertante permeando o mundo do filme, flertando com um incômodo provocativo e melancólico. A morte, outro tema recorrente na mostra, aqui surge como um clímax das escolhas que tomamos enquanto existimos, um fim de rota inescapável que faz com que o protagonista se obrigue a todo instante a mudar de direção. Mas nada de fato se concretiza, nem suas decisões, nem sua morte. Essa instabilidade permite que o filme permaneça sempre em aberto, nas significações dos seus signos e nas motivações que guiam as personagens que povoam o mundo maluco da obra. Essas figuras, todas sutilmente misteriosas, evocam um mistério, uma dúvida, um medo, uma desconfiança, um desejo, uma saudade. O filme de Carlos Segundo abre margem para muitas questões inconclusivas de forma enaltecedora e, diferente de outros da seleção, explora muitos temas sem parecer inchado ou mal trabalhado. Reflete, finalmente, de forma bastante peculiar sobre uma incapacidade masculina de aceitar que sua frustração é só sua e de mais ninguém. Talvez também o filme mais violento da mostra, por mergulhar o pesar de uma perda no deboche. Cheirar as cinzas da avó.

Justino – Nos bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, é a cinebiografia de Mário Justino, ex-pastor da igreja Universal que teve por muitos anos sua sexualidade escondida por ele e pela instituição que trabalhava. Sua jornada é trabalhada como um filme de máfia estilizado dialogando com Scorsese e aqueles inspirados por ele, o que dá bastante dinamicidade através de sua montagem. Mesmo se tratando de um tema efervescente no cenário brasileiro atual, marcado pelas igrejas pentecostais reacionárias, ele se concentra bem na ascensão e queda de Justino, vivido por Christian Malheiros. Todos os pastores secundários que surgem para pôr o protagonista no “caminho de Deus”, são vilanizados de maneira natural, sem precisar reforçar constantemente o tipo de empreendimento que se dá nesses espaços intoxicantes. A contaminação de Justino pelo seu meio, sua queda nas drogas e o diagnóstico sigiloso de AIDS, é trabalhado de forma legal pelo ator, que sustenta a entrega do personagem àquele mundo que ele acredita. Seus questionamentos vão surgindo conforme ele é repreendido pessoalmente pela congregação que participa, não fazendo com que o protagonista seja visto como um justiceiro divino que não aceitou as injustiças ao seu redor. Essa complexidade é importante para que o filme flua sem tropeçar em lugares-comuns, afinal, sua narrativa é bastante linear e não quer se ater ao que não é importante para a nossa relação com seu personagem principal. A inclusão final de Danuza, vivida por Onna Silva, como uma Jesus Cristo que salva Justino é interessante mas infelizmente é acelerada. No fim das contas, serve como lição para a cinebiografia do Chorão, sobre como tratar de um personagem complexo e errôneo, mantendo uma objetividade didática, mas sem cair no completo desleixo. 

Finalizando a seleção oficial de longas, Nosso Segredo, de Grace Passô, é um ponto fora da curva. Assim como Leite em Pó, não busca um caminho seguro para percorrer, se apoia em particularidades insólitas ao retratar uma família que passa por um luto. Mas diferente do filme de Segundo, que abre espaço para nos relacionarmos com o protagonista a partir de aspectos patéticos que o acompanham, Nosso Segredo se faz denso, complexo e até mesmo um pouco inacessível propositalmente. Não que seja algo codificado e alheio, mas sim há um hermetismo na sua forma que corresponde ao clima enlutado da obra toda. Uma casa quase mal assombrada pela culpa, pelo não dito, pela angústia. Nesse medo de explorar e expor o que sentem, as personagens se fecham, nos colocam do lado de fora do portão. É possível sim encontrar um comentário racial, que se debatia nos corredores do festival antes mesmo da sua exibição, sobre essa impossibilidade de comunicar uma dor que o outro não pode sentir e jamais irá. Mas o filme transita por essa incomunicabilidade como algo bastante existencial, que transcende esses demarcadores de raça. Um pesar ilustrado de forma inventiva, acompanhando familiares com seus problemas, mesmo que não saibamos exatamente do que se trata. Há um grosso tecido entre todos, que demora para ser rompido. Quando algo rompe, a casa é invadida pelo barro. Um elemento simbólico que inicialmente se pode associar especialmente a ancestralidade, seja dos povos negros e dos indígenas, mas que também surge como uma violência externa que invade o particular, como uma barragem rompida. Passô não constrói caminhos que facilitem o acesso às questões levantadas, nos faz andar por esse barro até uma quase exaustão. No fim do caminho não somos recompensados com nada, mas ficamos com ecos dos não ditos que se acumulam no lado da nossa orelha. Um longa que se pode dizer difícil, construído com uma beleza sufocante. 

Concluindo

Findadas as exibições competitivas, o longa de fechamento do Festival foi La Perra, da chilena Dominga Sotomayor. Longa multiamericano, com mãos de vários países latinos e que já havia sido exibido em Cannes. Trata-se mesmo do que se pode chamar um certo filme de festival, bastante belo e que se constrói de maneira um tanto fragmentária. O tempo é trabalhado de maneira paciente, mas a montagem atrapalha um pouco ao picotar um pouco demais as ações, causando um descompasso. Estranho reclamar disso, mas a beleza às vezes excessiva também compromete algum ruído possível nessa trajetória de culpa de uma mulher que vive com sua cadela nas montanhas. Alguns planos parecem reproduzir quadros exibidos em restaurantes chiques do interior. A cadela protagonista é bem trabalhada e isso é sim um êxito se pensarmos na dificuldade que é dar humanidade para outros animais, sem empurrar neles comportamentos nossos. Um longa que sabe ter seus momentos dentro desse jogo simbólico de um animal com a paisagem. Penso que sua presença como fechamento se dá tanto para manter a relação do Festival com o cinema latino-americano, quanto para declarar que, com o devido orçamento, agradavelmente simpático, é possível que obras sejam levadas a sério internacionalmente mesmo sendo medianas. E isso, de fato, contribui para que existam mais oportunidades de carreira para nossos cineastas, mas o destaque dado para uma obra internacionalmente não pode ser um fator central enquanto não existe um projeto encorpado de planejamento de carreira para quem almeja isso, e tal coisa ainda dependa de um capital simbólico desses cineastas (que precisam apostar numa autoralidade, como Mendonça Filho) ou no dinheiro do próprio bolso (como o bilionário Salles). A ressaca pós-Ainda Estou Aqui precisa ser superada.

Devo ter me estendido demais. Fico devendo os documentários, não porque não me interessa, mas porque sua inclusão na grade não os beneficiou e acabei não podendo assisti-los. Exibidos depois dos curtas brasileiros, lá pelas quase 22h, quando os restaurantes que aceitam os vouchers de alimentação já estão fechando e, caso se tenha assistido filmes desde às 17h, é preciso comer. Empurrar os documentários para esse horário está infelizmente muito atrelado à centralidade do tapete vermelho, que ganha mais atenção mesmo no festival. 

O resultado da minha estadia durante todo o festival foi perceber como se move o ecossistema do cinema brasileiro. Movido, claro, por lóbi e negociações que se escondem, mas é possível encontrar no meio dos turistas e das estrelas, pessoas instigadas a gerarem debate sobre os filmes, por piores ou menos empolgantes que sejam, refletindo sobre seus desdobramentos na produção nacional. Para além do prestígio que o Festival diz proporcionar a quem participa dele, é importante que se leve a sério o cinema enquanto trabalho. Não se paga as contas com prestígio. E a crítica de cinema, importante reforçar, faz parte desse universo. Ela colabora na formação de público e pode estar antes ou depois da distribuição, não como controle de qualidade, mas como preparação de terreno para que os filmes que surjam depois venham mais fortes, mais bonitos, mais complexos, mais múltiplos do que os que vieram antes. Isso também é trabalhar com cinema e, como trabalho, é importante que seja remunerado para que seja feito com qualidade. Sendo filmes com carreira comercial mais assertiva, intenção de circular internacionalmente ou alimentar uma demanda regional, tudo isso depende de uma formação séria de público.