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Publicado por em set 12, 2017 em Artigos, Destaques | 0 comentários

Festival multicultural e polifônico

Por Danilo Fantinel, presidente do Júri da Crítica no 45º Festival de Cinema de Gramado, especial para o site da Accirs

Nos 45 anos do Festival de Cinema de Gramado, a curadoria apresentou uma seleção de filmes bastante diversa em termos de gêneros fílmicos, temáticas, formatos narrativos, discursos e estéticas. Tão atento ao mercado quanto ao canônico e ao inovador, Gramado se mostrou multicultural e polifônico, espaço de vozes, cores, texturas e ideais.

As duas Irenes_de Fabio Meira_1

As duas Irenes, de Fabio Meira, escolhido o melhor longa-metragem brasileiro pelo júri da Crítica

 

CURTAS-METRAGENS

A Mostra Gaúcha de Curtas e a seleção de Curtas-Metragens Brasileiros foram exemplares em diversidade. Houve lindos filmes infantis com temática universal, como o simbólico O espírito do bosque, de Carla Saavedra Brychcy. Em seu delicado olhar sobre a infância, refinado por encenação e fotografia tipo memória afetiva, a cineasta reintegra poeticamente o humano ao mundo natural, do qual quase já não faz mais parte. Nessa transcendência audiovisual, a aventura pela mata protagonizada por uma menina ganha efeitos visuais discretos e fundamentais para a ambientação adequada dessa bela história metafísica. A garota Sofia Brandão foi escolhida a melhor atriz em curta pelo Júri Oficial, o que dividiu opiniões tendo em vista as atuações de Mirella Pascual e Monica Villa em Postergados (2016), de Carolina Markowicz, um interessante drama de mistério sobre destino, consciência e morte.

Caminho dos Gigantes_de Alois Di Leo

O caminho dos gigantes, de Alois Di Leo

Também unindo floresta a ritos de passagem, Alois Di Leo emocionou com a animação Caminho dos gigantes, filme movido pela imagem simbólica da árvore da vida, articuladora de uma história sobre indígenas que não morrem, mas se transmutam em imensas plantas tropicais. Em um filme sem fala no qual a música e a sonoridade são essenciais, o prêmio de melhor desenho de som em curta brasileiro foi merecido. Na mesma onda mítica/ecológica, Anttonio Pereira exibiu a animação de aventura O caçador de árvores gigantes, com destaque para a arte próxima da aquarela. Ainda entre os filmes para a gurizada, a comédia fantástica Médico de monstro, de Gustavo Teixeira, se mostrou nada menos do que adorável.

O quebra-cabeça de Sara, de Allan Ribeiro

O quebra-cabeça de Sara, de Allan Ribeiro

As pautas políticas vieram bem integradas a abordagens documentais quase antropológicas, pendendo para as problemáticas da orientação gay ou trans sempre pelo recorte dual discriminação/aceitação. O quebra-cabeça de Sara, de Allan Ribeiro, se destacou ao inovar no tratamento discursivo e estético audiovisual sobre a homossexualidade no ambiente familiar. No curta em preto em branco, Allan obtém sinceros depoimentos de Sara, uma mãe que luta contra seus próprios preconceitos para tentar acolher a filha que se assumiu lésbica após uma vida heterossexual. Sem mostrar o rosto de sua tão humana personagem, e ainda assim revelando muito sobre essa curiosa dona de casa suburbana, o cineasta lembra que a intolerância é algo bastante comum – e que pode ser trabalhada da melhor forma possível no intuito de apaziguamento. Melhor curta-metragem brasileiro pelo Júri da Crítica fácil, fácil.

Com uma história ainda mais devastadora, A Gis conquistou o prêmio de melhor curta pelo Júri Oficial. Thiago Carvalhaes remonta com atenção trechos da vida de Gisberta Salce, que nasceu homem no Brasil e que, após anos vivendo como mulher em Portugal, acabou sendo assassinada de forma brutal após dias de tortura. A tragédia de Gis desespera o espectador e dá pistas sobre como a intransigência pode revelar as condutas mais monstruosas. O tratamento fílmico sobre o tema, entretanto, é tradicional.

Nesse ponto, A Gis está distante de Tailor, doc de Calí dos Anjos, realizador trans que fez um filme trans, realizado por uma equipe trans e que apresenta um formato igualmente trans, pois varia entre live act e animação. Leve em sua aproximação ao tema, obtendo depoimentos inteligentes de personagens interessantes, e sempre conectando questões pontuais de forma orgânica, Calí foi escolhido o melhor diretor de curta-metragem brasileiro pelo Júri Oficial e também ganhou um prêmio especial do governo do Canadá: poderá estudar no país que, neste ano, foi homenageado pelo Festival de Gramado.

Cabelo Bom, de Swahili Vidal e Claudia Alves

Cabelo Bom, de Swahili Vidal e Claudia Alves

O orgulho da afrodescendência também foi representado por filmes vibrantes. Cabelo bom, de Swahili Vidal e Claudia Alves, dá voz a uma nova geração de mulheres negras que ama seus cabelos crespos, livres, multicoloridos e indomáveis, afirmando assim sua negritude e seu protagonismo sociocultural. Tendo a estética como política, meninas muito articuladas tomam a palavra para discursar contra os preconceitos sofridos, as hegemonias totalizantes e as ditaduras da beleza. Swahili e Claudia acertaram em cheio e levaram para casa o prêmio especial do júri. Já em Cores de Bissau, filmado em Guiné-Bissau, na África, Maurício Canterle propõe um tocante relato sobre as muitas dificuldades de uma comunidade isolada em busca de estruturação social. Para isso, exibiu uma das fotografias mais deslumbrantes de todo o festival, mas foi solenemente ignorado pelo Júri Oficial.

O espanto em Gramado se deu por enganos na premiação, sim, e também pelo cinema fantástico que ganhou espaço na tela – e que surpreendeu. Além do misterioso e já citado Postergados, de Carolina Markowicz, outra realizadora se destacou, dessa vez com um filme de horror. Julia Zanin de Paula apresentou um dos títulos com maior unidade fílmica entre curtas e longas. Exibido na mostra gaúcha e também na competição nacional, Mãe dos monstros é inspirado no conto La mère aux monstres, escrito por Guy de Maupassant em 1883. O curta acompanha uma garota que, após uma tarde em um circo nos anos 1970, acaba sendo raptada, mutilada e mantida em cativeiro para gerar uma prole de aberrações.

Mãe dos Monstros, de Julia Zanin de Paula

Mãe dos Monstros, de Julia Zanin de Paula

Questionada por jornalistas se não havia maculado a figura feminina, Julia teve que responder o óbvio: esse é um filme de gênero que não deve ser lido em sua significação imediata. Seu subsolo de sentidos é mais relevante, evidenciando questões sobre a quebra de limites em nome das pulsões humanas e do entretenimento nocivo. Ainda que as motivações e o impacto do filme de Julia despertem controvérsia, é inegável o esforço técnico dos realizadores na entrega de uma produção audiovisual de alta qualidade. Tudo é muito bem produzido e realizado, do roteiro bem pensado à caracterização de personagens, das atuações convincentes à direção de arte, da iluminação e fotografia com belo trabalho de profundidade de campo às movimentações de câmera para ambientações doentias.

Com domínio sobre o filme, Julia se mostra uma diretora comprometida com sua criação, deixando transparecer referências variadas – conscientes ou não. Entre La mère aux monstres e Mãe dos monstros há reflexos de Freaks (1932), Encaixotando Helena (1993), Seven (1995), clipes do Nine Inch Nails, da série Carnivàle (2003–2005), American horror story (2011-) e muito mais.

Sob águas claras e inocentes, de Emiliano Cunha

Sob águas claras e inocentes, de Emiliano Cunha

Outro curta com evidente unidade na composição audiovisual é Sob águas claras e inocentes, de Emiliano Cunha, título mais instigante da Mostra Gaúcha. Porém, essa concisão é de ordem conceitual e formal, pois, na verdade, o filme questiona a ideia do uno. Emiliano não apresenta uma única história, fechadinha, estanque, mas sim um mosaico narrativo sobre despedidas no qual, a cada nova sequência, o protagonista é interpretado por um novo ator ou atriz que projetam sobre esse personagem mutante a própria multiplicidade de sua existência. Com novos corpos em evidência na tela a todo o momento, Emiliano sugere hibridismos motivacionais ao protagonista que estão muito bem ligados a esse caleidoscópio de atuadores que o reinterpretam constantemente. Assim, provoca alterações (ou ramificações) narrativas direcionando o público a uma leitura plural de uma história múltipla.

Consciente na encenação e na geografia de cena, com roteiro, fotografia e iluminação bem afinados, Emiliano saiu do festival consolidado, acumulando os prêmios de melhor direção, melhor produtor (com Ausang, Davi de Oliveira Pinheiro e Pedro Guindani) e menção honrosa ao elenco do filme, todos concedidos pelo Júri Oficial, além do prêmio de melhor filme oferecido pela Accirs.

Infelizmente não pude ver Secundas, de Cacá Nazario, melhor filme pelo Júri Oficial, nem Yomared, de Lufe Bollini, filme com melhor atriz, música e montagem. No entanto, essa falta não prejudicou minhas atividades no Júri da Crítica, núcleo que não vota na Mostra de Curtas Gaúchos.

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

As duas Irenes, de Fabio Meira

As duas Irenes, de Fabio Meira

Premiado como melhor longa-metragem pelo Júri da Crítica, além de ganhar os prêmios de melhor roteiro (Fábio Meira), melhor ator coadjuvante (Marco Ricca) e melhor direção de arte (Fernanda Carlucci), As duas Irenes chamou a atenção pela qualidade audiovisual ao contar uma curiosa história. No interior do Brasil, no passado recente, uma menina chamada Irene descobre que seu pai tem outra família em outro vilarejo. Nessa outra família de seu pai, sua outra filha, também chamada Irene e com a mesma idade, tem outra vida – uma vida bem melhor que a dela, com muito mais afeto.

Se a sinopse já causa arrepios de interesse, o que Fabio Meira e equipe fazem para transformá-la em um filme cheio de contornos e descobertas não é menos emocionante. Com um roteiro inventivo, sem reviravoltas excessivas, Fabio articula um ritmo narrativo muito adequado para propor aproximações, crises e desenlaces impactantes para seus personagens. Atuações, direção de arte e fotografia no tom certo contribuem para um filme em que a montagem flui sem atropelos, chegando a um final desafiador e memorável. Tão despretensioso quanto encantador, com história envolvente, tom coloquial e excelente realização, As duas Irenes é alternativa autoral a um cinema popular desvinculado de comédias.

Como nossos pais, de Laís Bodansky

Como nossos pais, de Laís Bodanzky

E em se tratando de excelência, Como nossos pais, de Laís Bodanzky, é um bom exemplo. Escolhido melhor filme da 45ª edição do festival, o longa apresenta acentuada coesão e intensa abordagem sobre temáticas contemporâneas. Na trama, a conflituosa relação de Clarice (Clarisse Azambuja) com sua filha, Rosa (Maria Ribeiro), atinge o ápice quando a mais nova descobre detalhes reveladores sobre seus pais. Agora ciente de sua origem, Rosa entra em crise pessoal, conjugal, materna e profissional, percebendo que já não tem domínio sobre sua própria vida.

O equilíbrio do filme se fundamenta no ótimo roteiro de Laís e Luiz Bolognesi, na excelência técnica da filmagem e no elenco afinadíssimo, vencedor dos prêmios de melhor atriz (Maria Ribeiro), ator (Paulo Vilhena) e atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra). Laís, premiada pela melhor direção de longa-metragem, converge esses elementos cinematográficos em uma potente narrativa sobre os conflitos da mulher urbana em uma sociedade cada vez mais feminista. A cuidadosa montagem de Rodrigo Menecucci desenrola essa espiral catártica evidenciando um grande filme.

Se Como nossos pais tem supostos atributos que o fazem quase incontestável, Bio, de Carlos Gerbase, adota um dispositivo arriscado para transgredir gêneros e formatos narrativos. Audacioso em sua proposta, mas não totalmente palatável, Bio é uma ficção com formato documental sobre um personagem nunca visto em cena, acerca do qual ficamos sabendo por meio dos depoimentos de familiares, amigos e conhecidos.

Bio, de Carlos Gerbase

Bio, de Carlos Gerbase

Talvez seja esse o ponto crítico de Bio, tendo em vista que documentários baseados exclusivamente em depoimentos costumam ser chatos. Um doc fundamentado unicamente nas chamadas “cabeças falantes”, ou seja, na fala de entrevistados, exige alguma abordagem audiovisual inusitada que o torne atraente. Neste 45º Festival de Gramado houve casos assim na mostra de curtas-metragens, como O quebra-cabeça de Sara (Allan Ribeiro), Cabelo bom (Swahili Vidal e Claudia Alves) e Tailor (Calí dos Anjos), já comentados acima. A ficção documentarizante de Gerbase, porém, não inova na captação e apresentação de seus depoimentos.

No filme, há basicamente personagens em frente à câmera falando sobre um protagonista sem nome que viveu 111 anos entre 1959 e 2070, gerando assim quatro famílias, algumas inovações científicas e dezenas de constrangimentos por ser incapaz de mentir. Com personagens falando compulsivamente, Gerbase compartilha com seu público uma espécie de ultra-narrativa erguida especialmente sobre a palavra falada. Assim, exige do espectador atenção total e uma imaginação criadora capaz de completar intensamente a história que está sendo contada. Essas são condições essenciais em um longa ambicioso que contrapõe um amplo espaço-tempo diegético a uma produção fílmica modesta, fundamentada na incansável direção de cenas de estúdio envolvendo não apenas 39 atores e atrizes como também diversos cenários – o que rendeu a Gerbase o Prêmio Especial do Júri pelo feito.

Em um filme com muito texto, dezenas de atores e inúmeras histórias interligadas, destacam-se o louco e labiríntico roteiro do cineasta e a montagem cirúrgica de Milton do Prado, responsável pelo ritmo acelerado que conecta os personagens enquanto os mesmos desvendam a vida desse excêntrico protagonista. O artifício é igualmente bem utilizado quando personagens tecem comentários transversais (e nem sempre amigáveis) de uns sobre os outros. Chegando ao final do longa, esse recurso formal torna-se mais intenso, permitindo que cenas e sequencias desenhem de forma bem adequada as linhas hereditárias dessa imensa árvore genealógica.

Portanto, há engenhosidade no projeto de Gerbase, ainda que o produto final não reflita seu potencial. Talvez assim, olhando de trás para frente, as qualidades de Bio se sobressaiam. Do contrário, em seu sentido original, o filme pode ser uma experiência confusa e inquietante. Perder alguns detalhes por desatenção em um minuto pode levar o espectador ao centro do labirinto.

Pela janela, de Caroline Leone

Pela janela, de Caroline Leone

Dois bons filmes deixaram Gramado de mãos vazias. Pela janela, de Caroline Leone, é um sensível road movie belamente protagonizado por Magali Biff, intérprete de uma operária paulista demitida após ter dedicado a vida a uma fábrica. Sem perspectiva, parte com o irmão em uma gradativa jornada de reinvenção pessoal até Buenos Aires. Com personalidade, Caroline compõe uma narrativa afetuosa injustamente ignorada no evento.

A capital argentina também é cenário de Vergel, de Kris Niklison, outro filme sobre um rito de passagem centrado em personagem feminina. No longa dessa cineasta-teatróloga com experiência em dança e atuação, os pontos altos são a direção de arte, a fotografia e a iluminação. Na trama, a personagem de Camila Morgado guarda luto pela morte do marido da forma mais louca, alterando estados de depressão e letargia com momentos de raiva (pela burocracia do traslado do corpo) e euforia (pelo inesperado affair com a vizinha interpretada por Maricel Álvarez). Com cenas quentes, belíssimos enquadramentos, excelente movimentação de câmera em espaço confinado e algum surrealismo visual, Vergel poderia ter sido lembrado pelo Júri Oficial em categorias técnicas.

Pinamar, de Federico Godfrid

Pinamar, de Federico Godfrid

Já entre os longas-metragens latinos, o escolhido pelo Júri da Crítica foi Pinamar, de Federico Godfrid, no qual a morte da mãe de dois irmãos muito diferentes entre si coloca-os em rota de colisão durante uma viagem ao balnenário argentino que dá nome ao filme. O belo roteiro de Lucia Moller, que leva os personagens a um conflitante retorno a memórias afetivas, encontra em Godfrid um cineasta capaz de propor sentimento fraternal em doses recomendáveis.

 

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