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Publicado por em jul 17, 2019 em Artigos |

Santiago, Itália

Por Leonardo Bomfim

Vi Santiago, Itália (2018), novo documentário de Nanni Moretti, no Bafici, o Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires. Era o filme de encerramento.  Naquele dia, já havia visto dois filmes que traziam protagonistas escondidos em suas tramas, o incrível The Passionate Stranger, da pioneira feminista inglesa Muriel Box, e Shakti, o novo curta de Martín Rejtman, o papa do Nuevo Cine Argentino.

Saí com essa impressão: em galáxias absolutamente distantes, a verdadeira autora dos bolinhos de batata do filme de Rejtman e a história rocambolesca do Dom Quixote da Sicília do filme de Muriel Box, me fizeram pensar sobre protagonistas impossíveis a partir do momento em que os territórios de uma história são delimitados. 

Mordido pelo bicho da semelhança, fiquei me perguntando se também não há um protagonista escondido no filme de Moretti. Por que o interesse nessa história agora? Ao longo da projeção, a questão vem algumas vezes à cabeça – em uma sequência a impressão é a de que o filme só existe para que Moretti possa dizer na cara de um torturador chileno, um velho desprezível que exige a imparcialidade na entrevista: io non sono imparziale.

Mas há algo mais, é claro. O coração do filme, o título já sugere, é o episódio do refúgio dos perseguidos políticos na Embaixada Italiana, em Santiago, e a consequente fuga para o país europeu. Uma história que já conhecemos, inclusive, em recentes documentários brasileiros como Diário de uma Busca, de Flavia Castro, e Retratos de Identificação, de Anita Leandro.

O filme italiano reconstrói a partir de depoimentos a alegria e o terror chileno nos anos 1970; da sensação dos dias mais felizes das nossas vidas (com a vitória democrática de Allende), da sensação de um socialismo asfixiado por todas as instâncias do poder (auxiliadas pelos Estados Unidos), à sensação de um pânico profundo pós-golpe de estado. Esquiva-se de algumas complexidades, já muito bem investigadas em obras chilenas (os documentários de Patricio Guzmán e Miguel Littin, devidamente entrevistados por Moretti) ou no colosso francês de Chris Marker, O Fundo do Ar é Vermelho. Talvez porque a ideia realmente seja apenas contextualizar a história para um público europeu contemporâneo que a desconhece. Aí começa a aparecer, de fato, o protagonista escondido.

A certeza do real interesse de Moretti nessa história – antiga para os europeus e eternamente contemporânea para os sul-americanos – vem mesmo no último depoimento, quando um dos chilenos radicados em Milão fala sobre as diferenças de um país que recebeu tão bem os refugiados nos anos 1970 e o desastre atual, com um povo completamente obcecado pelo consumo e pelo individualismo. Mais alguns segundos, uma cena musical, e o fim interrompe a história. O protagonista que quase nunca está lá no filme de Nanni Moretti é a Itália contemporânea. Mas há (sempre há! mesmo adormecida, alguma utopia sempre existirá no filmes de Moretti sobre a esquerda) o sonho com esse protagonista impossível, uma Itália acolhedora e sensível diante dos horrores do mundo.