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Publicado por em maio 14, 2026 em Destaque, Dossiês, Em destaque |

XVII Festival Internacional de Cinema da Fronteira: uma mostra dominada pela realização feminina

por Jorge Ghiorzi

Realizado em Bagé (RS) de 27 de abril a 2 de maio, o XVII Festival Internacional de Cinema da Fronteira consolida, ano após ano, sua posição como um dos mais representativos e importantes certames cinematográficos de repercussão nacional e internacional. Com a reestruturação das mostras competitivas internacionais em outros eventos do estado, o festival de Bagé vem ocupando esse espaço com vocação singular, favorecido por sua localização geográfica que dialoga diretamente com as nações irmãs latino-americanas.

Um ponto de destaque neste ano foi a parceria com a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que se incorporou ao evento concedendo o Prêmio São Sebastião/Assembleia Legislativa, troféu oficial da competição.

O Festival Internacional de Cinema da Fronteira reuniu em sua programação exibições competitivas de curtas e longas-metragens internacionais, mostras informativas, sessões inclusivas com acessibilidade e audiodescrição, debates, oficinas educativas, palestras, apresentações artísticas e folclóricas e o V Mercado Sur Frontera WIP LAB. Essa pluralidade de atrações, que integra música, artes plásticas, dança e poesia ao universo cinematográfico, consolida em Bagé o conceito de “Festival das Artes”, uma das características mais singulares deste certame.

Esta edição de 2026 revelou um panorama cinematográfico onde a documentação do real se encontrou com a sofisticação da forma. Ao percorrermos a seleção de filmes de longa-metragem, percebemos um fio condutor que atravessa fronteiras e gêneros: o cinema como ferramenta de investigação e, acima de tudo, de resistência. Das distopias que projetam nossos medos sociais aos documentários que resgatam vozes silenciadas pela história, a programação reafirmou a potência da imagem como espaço de contestação narrativa e de profunda humanidade.

Um dos pontos altos desta safra foi o uso recorrente do metacinema, onde o processo de criação artística deixa de ser um bastidor para se tornar o próprio coração das obras. Vimos cineastas que utilizam o dispositivo fílmico para refletir sobre a própria identidade e para preencher lacunas históricas com imaginação e afeto. Seja na denúncia visceral de conflitos de terra ou na celebração íntima da herança teatral, cada obra pareceu buscar uma verdade que escapa aos registros oficiais. O que se apresentou foi um cinema plural e corajoso, que recusa o óbvio e convida o espectador a um olhar mais atento sobre as cicatrizes e os sonhos da contemporaneidade.

Para a Mostra Competitiva de Longas-Metragens Internacionais, foram selecionados 10 títulos provenientes de países de línguas ibero-americanas. Deste grupo, quatro obras pertencem ao gênero documentário e as demais são trabalhos de ficção. Um ponto a ser destacado é o fato de oito filmes terem sido dirigidos por mulheres, consolidando uma predominância feminina na realização. Essa presença se estende também à temática e ao protagonismo, presentes, em maior ou menor grau, em pelo menos sete produções.

A ACCIRS marcou presença na composição do Júri da Crítica ao lado de Sofía Ferrero Cárrega, crítica de cinema e integrante da Asociación de Cronistas Cinematográficos de la Argentina, e Tatiana Carvalho Costa, realizadora audiovisual e presidente da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).

Estes foram os filmes concorrentes na Mostra Competitiva de Longas-Metragens Internacionais:

Ángeles

(México e Argentina)

Direção: Paula Markovitch

Em Ángeles somos testemunha da construção de um retrato visceral da marginalidade juvenil em uma metrópole latino-americana, fugindo do melodrama convencional para abraçar um realismo quase palpável. A narrativa acompanha Ángeles, uma menina de quatorze anos que oscila entre a doçura da infância e a urgência da sobrevivência, e David, funcionário de um estacionamento cuja desilusão o leva a um pacto sombrio.

O filme utiliza uma câmera fluida e closes intimistas para registrar não apenas as ações, mas o estado de espírito fragmentado de seus protagonistas. O acesso de David aos veículos sob sua guarda permite que o grupo, confinado no interior dos carros “emprestados” para aproveitar o frescor do ar-condicionado, crie uma bolha de normalidade ilusória. Naquele espaço o espectador é convidado a testemunhar a beleza efêmera de uma família inventada antes do colapso inevitável.

A força da obra reside na ambiguidade moral de sua protagonista, que assume o papel de um “anjo da morte” por puro pragmatismo existencial. Enquanto David está condenado pelo desejo de morrer, Ángeles parece condenada à resistência de viver em um mundo que lhe nega o direito à inocência. A atuação espontânea do elenco mirim confere uma autenticidade perturbadora ao roteiro. A decisão da menina em ajudar o amigo em seu fim trágico não surge de uma maldade inerente, mas de uma compreensão crua da finitude. É uma tragédia anunciada que questiona se a infância é roubada pela sociedade ou se, naquelas circunstâncias, ela simplesmente nunca teve espaço para existir, restando apenas o instinto de quem não encontra seu lugar no mundo.

Prêmios: Melhor Filme (Júri Popular) e Melhor Atuação (Ángeles Pradal)

Cartas para…

(Brasil)

Direção: Vânia Lima

Este documentário articula uma ponte poética sobre o Atlântico, unindo as vivências das escritoras Paulina Chiziane, Elisa Lucinda e Raquel Lima através de uma estrutura epistolar contemporânea. O filme transcende o formato documental tradicional ao transformar a troca de correspondências em um dispositivo de cura e reconhecimento. Ao conectar Moçambique, Brasil e Portugal, a narrativa revela que a língua portuguesa, embora herança de um passado colonial, é aqui reivindicada como um território de resistência e espiritualidade. A palavra, seja ela escrita, falada ou declarada, atua como o fio condutor que expõe ascendências comuns e os desafios compartilhados contra o racismo e o machismo.

A força da obra reside na materialidade dos corpos e na sonoridade das vozes dessas três mulheres negras, cujas trajetórias na diáspora convergem para uma luta comum: o direito de existir e criar. A realizadora Vânia Lima utiliza uma montagem que valoriza o cotidiano e a introspecção, permitindo que os desejos e as angústias das escritoras moldem o ritmo da tela. Mais do que um registro biográfico, o filme é um manifesto sobre o futuro do idioma e de seus falantes, onde a ancestralidade não é um peso, mas o alicerce para uma existência que desafia fronteiras geográficas e sociais. É um retrato sensível sobre como a poesia pode subverter distâncias e reescrever histórias marcadas pela dor em narrativas de liberdade.

Cielo

(Bolívia)

Direção: Alberto Sciamma

Um drama fantástico que mergulha no deserto boliviano para construir uma jornada fundamentada no realismo mágico latino-americano. A narrativa acompanha Santa, uma jovem de origem indígena que se lança em um road movie espiritual e físico na tentativa de conduzir sua mãe ao paraíso eterno. O filme brilha ao normalizar o inusitado, amparado por uma bela fotografia que traduz visualmente a fé e o misticismo que permeiam a cultura local. Um dos pontos de destaque da obra é a presença da trupe de lutadoras de luta livre. As mulheres não apenas corporificam a sororidade feminina, mas funcionam como um corpo único e simbólico que acolhe a protagonista com um instinto maternal arrebatador.

Entretanto, o potencial da obra é severamente delimitado em seu desfecho. Após construir uma trajetória rica em simbologia latina e protagonismo feminino, o roteiro decepciona ao simplificar os conflitos no terceiro ato. A conclusão conciliadora contradiz a força da construção narrativa anterior ao deslocar o eixo da história, retirando o foco de Santa para se concentrar no processo de redenção de um personagem masculino. Ao trocar a perspectiva de sua heroína por uma resolução convencional, Cielo interrompe o voo de sua própria fantasia, entregando um final que enfraquece a intensidade da jornada iniciada no deserto. Um filme que prometeu o céu, mas não cumpriu a promessa.

Aqui Não Entra Luz

(Brasil)

Direção: Karol Maia

Obra documental que investiga a realidade das trabalhadoras domésticas brasileiras, conduzida pelo olhar da própria realizadora, que assume um papel ativo na narrativa. Por ser filha de uma delas a cineasta utiliza a própria experiência para narrar uma investigação que aborda feridas abertas desde a Era colonial. O título de dura poesia já estabelece o tom da obra que utiliza o afeto e a ancestralidade como ferramentas de denúncia ao revelar que a arquitetura das nossas casas ainda guarda os fantasmas da senzala no espaço físico e simbólico do quarto de empregada.

O grande trunfo do documentário reside no seu caráter intimista de investigação pessoal. Ao colocar a própria mãe como figura central da narrativa a diretora remove a barreira entre observador e objeto para tratar de uma estrutura que atravessa a história do Brasil. Não se trata apenas de um registro sobre o outro mas de uma busca visceral sobre a própria identidade e as marcas que o trabalho doméstico deixa na alma de quem o exerce.

Embora o longa refaça a trajetória de tragédias e vidas marginalizadas ele evita o vitimismo ao apresentar relatos plenos de dignidade e valor. As histórias dessas mulheres surgem como um manifesto contra a invisibilidade e expõem a dor do preconceito que ainda hoje é constituinte da cidadania brasileira. Ao contrário do que sugere o nome o filme é um feixe de luz potente sobre as estruturas de poder que sustentam as relações de classe e raça no Brasil.

Prêmio: Menção Honrosa

Um Futuro Brilhante

(Uruguai, Argentina e Alemanha)

Direção: Lucia Garibaldi

O filme apresenta a história de Elisa uma jovem inteligente e curiosa que finalmente conquista um emprego há muito desejado. A premissa de ficção científica distópica se constrói sobre o mistério em torno desse local de trabalho aparentemente perfeito, mas de onde ninguém jamais retorna. No entanto a produção parece sofrer com a falta de recursos e uma direção de arte limitada que obriga a narrativa a funcionar mais pela sugestão do que pela estética apresentada em cena.

O desenvolvimento da trama se revela frágil e pouco envolvente ao falhar na construção de uma atmosfera que sustente o suspense proposto. As motivações de Elisa surgem incertas e vacilantes o que dificulta a conexão do espectador com a jornada da protagonista. Essa ausência de densidade se estende aos demais personagens e resulta em uma obra que soa fria e distante mesmo diante de um cenário que exigia maior urgência dramática.

Ao apostar em um minimalismo que nem sempre se traduz em eficiência narrativa o longa acaba por entregar uma experiência que não aprofunda as questões de sua própria distopia. O que resta é uma premissa curiosa que se perde em uma execução técnica e emocional aquém do potencial sugerido pela sinopse.

Queimadura Chinesa

(Uruguai)

Direção: Verónica Perrotta

A trama explora a tensa relação entre os siameses Annie e Dani durante seu processo de separação física e emocional, ao mesmo tempo em que a tentativa do irmão mais velho, Willie, de se aliar a um deles agrava o conflito. O filme se destaca por um roteiro inventivo que transita por diversas camadas narrativas ao utilizar o recurso metanarrativo para mesclar a realidade objetiva do set de filmagens com a própria encenação e o universo interior do artista. É uma obra que mergulha no fluxo criativo da criação artística e se assume como um exercício de construção de realidade tipicamente pós-moderno.

A narrativa recusa o óbvio e surpreende a todo momento ao transformar o ambiente de produção em uma experiência caótica onde tensões e fantasia se confundem. Essa liberdade narrativa não convencional permite que o filme se mantenha coeso, mesmo em sua estrutura fragmentada, revelando-se uma obra imaginativa e profundamente estimulante. Ao transitar entre o que é filmado e o que é vivido nos bastidores, a diretora constrói um mosaico sobre o processo de dar vida a uma ideia onde o caos se torna parte fundamental da estética proposta.

O resultado é um exercício de criação que desafia as expectativas do espectador e reafirma a potência do cinema quando este se propõe a refletir sobre os seus próprios mecanismos. Ao evitar fórmulas tradicionais Queimadura Chinesa entrega uma jornada sensorial que valoriza a experimentação e a coesão interna em detrimento de uma linearidade comum.

Prêmio: Melhor Roteiro

Duas Vezes João Liberada

(Portugal)

Direção: Paula Tomás Marques

O filme promove um resgate da vida de João Liberada, figura histórica do século XVI que desafiou as normas de gênero de sua época e enfrentou a perseguição da Inquisição em Portugal. A obra se constrói através do metacinema, adotando o formato de um diário de filmagem que documenta a própria produção. Quando o diretor adoece, o protagonista que interpreta João Liberada precisa superar obstáculos técnicos e emocionais para concluir o projeto, fazendo justiça ao legado dessa personalidade cujos registros oficiais são marcados por silenciamentos.

O grande trunfo da narrativa é a forma como ela borra os limites entre o documental a encenação e a reimaginação histórica. O filme transita com naturalidade por diferentes gêneros cinematográficos ao abraçar o drama e o experimentalismo para preencher as lacunas deixadas pelo tempo. Essa transição reflete a própria fluidez do personagem central criando um paralelo entre a diversidade de gêneros sexuais e a pluralidade da linguagem audiovisual utilizada na tela.

Ao assumir o ativismo como uma ferramenta de construção narrativa o filme se revela um potente exercício de imaginação política. A produção não busca apenas retratar o passado, mas reconstruí-lo sob uma perspectiva contemporânea que valoriza a resistência e a identidade. O resultado é uma obra instigante que utiliza o cinema como um espaço de reparação histórica e celebração da liberdade individual diante de estruturas opressoras.

Prêmios: Melhor Filme e Melhor Direção

Futuro Futuro

(Brasil)

Direção: Davi Pretto

O filme apresenta uma cidade brasileira do futuro onde um homem sem memória embarca em uma jornada trágica e absurda para descobrir o seu verdadeiro lugar no mundo. A trama se desenvolve a partir do uso de um dispositivo de inteligência artificial criado para auxiliar pessoas com uma estranha síndrome neurológica servindo como ponto de partida para uma ficção científica distópica de tom profundamente pessimista. O protagonista transita com espanto entre dois mundos opostos ao evidenciar uma divisão social onde a elite privilegiada vive de forma niilista e hedonista.

Essa classe dominante dedica-se exclusivamente ao prazer sem a necessidade de trabalhar pois usufrui do esforço exaustivo dos excluídos que são sistematicamente explorados para sustentar tal estilo de vida. A crítica social se torna evidente na medida em que o longa expõe o abismo ético e humano entre esses grupos enquanto o mundo caminha para um desfecho fatalista. Não há espaço para esperança na narrativa que posiciona a humanidade à beira de um apocalipse final capaz de extinguir a vida sobre a Terra.

Com uma atmosfera densa e desoladora a obra utiliza os elementos do gênero para refletir sobre o esgotamento dos recursos e das relações sociais. Futuro Futuro mostra um retrato amargo de um destino que parece inevitável, onde a tecnologia falha em salvar a essência humana e apenas acentua as desigualdades de um sistema em colapso. O resultado é um filme que traz inquietação ao confrontar o espectador com a iminência de um fim sem redenção.

Prêmios: Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte

Nada a Fazer

(Brasil)

Direção: Leandra Leal

A relação entre as atrizes Ângela Leal e Leandra Leal ganha uma nova dimensão neste documentário que transforma o confinamento forçado da pandemia em um solo fértil para a criação. Ao decidirem ler e encenar em casa a peça “Esperando Godot” de Samuel Beckett as duas iniciam uma jornada de transformação que reafirma a arte como uma ferramenta essencial de sobrevivência. O filme se revela uma celebração da força vital do fazer artístico que brota através da imaginação mesmo quando os recursos são escassos e o horizonte é marcado por incertezas.

Amparada por imagens de arquivo a narrativa dirigida por Leandra Leal faz um resgate afetuoso da trajetória de sua mãe e da ligação histórica da família com o Teatro Rival que enfrentava a ameaça de um fechamento iminente. O registro captura com sensibilidade e sinceridade os bastidores desse processo criativo enquanto reforça laços familiares e celebra a própria história no palco. Trata-se de uma obra amorosa sobre o valor da cultura na vida das pessoas ao demonstrar como a encenação pode servir de refúgio durante a fase do isolamento social.

O resultado é um inventário íntimo que transcende o ambiente doméstico para se consolidar como um manifesto sobre a resistência da classe artística. Ao unir a metalinguagem teatral com a crônica de um momento histórico singular o documentário prova que o ato de criar é acima de tudo um exercício de esperança. Nada a Fazer faz um retrato sincero de duas gerações de mulheres que encontraram no texto de Beckett o fôlego necessário para atravessar o caos e honrar um legado de dedicação à arte de representar.

Nossa Terra

(Argentina)

Direção: Lucrecia Martel

O assassinato do ativista Javier Chocobar e a expulsão de sua comunidade de terras ancestrais na Argentina servem de eixo central para este documentário de investigação. A produção se debruça sobre o polêmico caso ocorrido em 2009 quando Chocobar foi morto a tiros ao defender o seu povo de um despejo forçado. Através de um extensivo estudo sobre a história dos moradores originários a realizadora constrói um amplo painel humano que reivindica a identidade dos verdadeiros donos daquele território.

A narrativa utiliza entrevistas e depoimentos para compor uma iconografia histórica poderosa onde a montagem estabelece contrapontos reveladores entre fatos passados e a cobertura das sessões de julgamento. Ao intercalar o resgate de imagens reais do atentado com a fala de moradores e conterrâneos de Chocobar, o filme apresenta tantos elementos e argumentos que poderia muito bem servir como uma peça de acusação em um tribunal. Essa densidade documental transforma a experiência em algo próximo a um drama de suspense mantendo o espectador em constante estado de aflição diante da brutalidade dos fatos.

O resultado é um registro emblemático da luta das comunidades nativas por justiça e pelo direito à terra. Lucrecia Martel evita o distanciamento protocolar para entregar uma obra visceral que expõe as feridas da colonização moderna e a persistência da violência contra os povos indígenas. Nossa Terra consolida-se como um documento fundamental de resistência ao dar voz e rosto a uma tragédia que o tempo e o poder tentaram silenciar.

Prêmios: Melhor Filme (Júri da Crítica) e Melhor Montagem