Algumas impressões sobre o 54º Festival de Cinema de Gramado, por Rafael Valles
Nesta edição do Festival de Cinema de Gramado, tive a oportunidade de representar a Accirs como parte do júri da crítica para as mostras de curtas e longas nacionais, em conjunto com Simone Zuccolotto (Abracine), Flavia Guerra (Abracine), Pâmela Eurídice (Abracine) e Victor Souza (Accirs). Ir ao festival nessa condição também me possibilitou viver o evento com intensidade e com a responsabilidade de olhar criteriosamente para os filmes.
A partir das análises que realizamos ao longo do festival, o júri da crítica decidiu premiar os filmes “Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo, como Melhor Longa-Metragem Nacional, e “Mulher Papaya” (SP), de Camila Tarifa, como Melhor Curta-Metragem Nacional. As justificativas para ambas as premiações foram:
Leite em Pó
Sem ficar preso a um enredo óbvio, sua narrativa apresenta um personagem à deriva, atravessado por errâncias e indefinições diante da vida. Inventivo, autoral e ousado, o filme encontra o humor nas situações mais inusitadas, construindo uma abordagem que transita entre o estranhamento e o encantamento. De estrutura fragmentária e tom sóbrio, o longa evita excessos estilísticos ou dramáticos para se construir a partir das pequenas tensões do cotidiano. Em meio ao luto e à memória, o desfecho se mostra sinuoso e surpreendente.
Mulher Papaya
O filme apresenta inventividades imagéticas para abordar a questão do desejo e do corpo, e de que forma isso reverbera nas relações familiares e no universo do trabalho. Aborda, de forma original, a história de uma mulher na terceira idade, trazendo com ousadia suas ações e escolhas, sem ser condescendente diante das decisões que toma ao redescobrir sua sexualidade.
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Trago algumas impressões pessoais sobre os filmes e as mostras a que pude assistir. Antes disso, porém, faço aqui um comentário sobre algo que me parece urgente que o festival reavalie para as próximas edições: a presença dos documentários na programação.
Sinto que há duas possibilidades: ou o festival insere os documentários na Mostra Nacional de Longas-Metragens — o que me parece a escolha mais sensata — ou, caso opte por manter uma mostra específica de documentários, que a programe em outro horário, evitando sessões tão tardias e, consequentemente, tão esvaziadas.
Os filmes merecem também concorrer ao Prêmio do Júri da Crítica e precisam ser mais bem considerados dentro da programação geral do evento. Trata-se de uma produção importante do cinema brasileiro que, a meu ver, não deveria ocupar uma posição secundária dentro de um festival da dimensão e da importância de Gramado.
MOSTRA DE CURTAS GAÚCHOS
O ponto positivo da mostra foi a diversidade de estilos, gêneros e buscas narrativas apresentados pelos filmes selecionados. Trabalhos como “Grão” (dir. Gialuca Cozza e Leonardo da Rosa), “Estátuas também morrem?” (dir. Thais Fernandes), “Braço Forte” (dir. Rubens Fabrício Anzolin e João Fernando Chagas), “Raidinalha” (dir. Marco Arruda) e “Banho Maria” (dir. Gabriel Faccini) apresentaram caminhos criativos e originais, com obras que, inclusive, poderiam ter integrado a mostra nacional de curtas do festival e que apontam para um futuro promissor do cinema gaúcho.
MOSTRA DE LONGAS NACIONAIS
“Nosso Segredo” (MG), de Grace Passô
O filme possui uma abordagem original e instigante para pensar a questão do luto, seus estados e seus desafios num entorno familiar. Tanto os aspectos visuais quanto os sonoros são muito bem trabalhados, trazendo uma narrativa que nos conduz por caminhos sensoriais, sem ficar presa a uma trama mais convencional. Por outro lado, em alguns momentos, o filme exagera em suas escolhas narrativas e estéticas, assumindo caminhos demasiadamente herméticos e simbólicos, criando assim, um distanciamento e uma frieza formal que impedem uma maior vinculação com o drama e as histórias dos personagens.
“Justino – Nos Bastidores do Reino” (DF), de José Eduardo Belmonte
O filme traz uma narrativa coesa e envolvente. O enredo se mostra bem construído ao apresentar a ascensão e a queda do protagonista, com uma história complexa e rica em matizes dramáticos. Traz temáticas importantes e pouco abordadas no cenário contemporâneo, como as tensões entre fé e sexualidade, crença e desejo. Aborda muito bem o lado obscuro do universo evangélico e a religião como negócio, tema quase tabu no cinema nacional. Com um ritmo que não deixa cair a intensidade e um trabalho muito coeso na interpretação dos atores, o filme se sustenta ao longo de sua narrativa. Por momentos, porém, a narração em voice-over se mostra muito intrusiva e desnecessária, quando a imagem já conduz bem à compreensão das ações.
“Leite em Pó” (MG/SP/RN), de Carlos Segundo
O filme possui sua força no personagem principal, um homem de meia-idade que se mostra perdido e que vai sendo levado pelas circunstâncias da vida, sem muita convicção sobre como seguir adiante. Diante do estranhamento das situações enfrentadas pelo personagem e das decisões que toma, a imprevisibilidade do que vem pela frente ao longo da narrativa é o que torna esta obra original. Com um estilo marcadamente autoral, sem ficar refém de uma trama convencional, por momentos o filme constrói um humor estranho e original, que traz um molho especial à história. O ritmo cadenciado do filme, em alguns momentos, se justifica, mas também faz com que pareça mais longo do que sua duração final. Trata o tema do luto e da memória com originalidade.
“Chorão: Só os Loucos Sabem” (SP), de Hugo Prata e Felipe Novaes
O filme está cheio de clichês de cinebiografias, e o roteiro está mais próximo de uma telenovela ou série televisiva do que do cinema. Sem o cuidado necessário para mostrar as transições de ascensão e queda do personagem e de sua banda, o filme carece de sutilezas: tudo parece acontecer muito rapidamente e sem nuances na trajetória do protagonista. Algumas escolhas equivocadas de produção também determinam falhas no resultado final, como nas apresentações do grupo: ou eles estão no estúdio tocando, ou já aparecem em um grande show, sem que se busque ambientar a ascensão da banda nos becos de Santos. José Loreto, o ator que interpreta Chorão, incorporou muito bem o personagem e seus trejeitos, sendo um dos únicos pontos positivos do filme. Por outro lado, algumas escolhas na direção dos atores se mostram constrangedoras, como na cena da morte do pai de Chorão. Os integrantes da banda também parecem figurar quase como extras, com exceção de Chorão e Champignon.
“Pele de Rinoceronte” (RJ), de Marcello Ludwig Maia
Dois filmes em um, sendo que um acaba anulando a força do outro. O filme começa bem com a personagem da jornalista e sua apuração e investigação sobre o caso real do assassinato de Angela Diniz. No entanto, o personagem intepretado por Debora Falabella acaba perdendo força à medida que avança a história, quando ela se desliga do caso sem sequer acompanhar seu desenlace. Já a personagem da advogada interpetada por Naruna Costa começa como coadjuvante de seu marido, advogado de acusação no mesmo caso de assassinato, mas vai ganhando força no filme da metade em diante. As melhores cenas estão com os advogados, mas a narrativa se mostra muito previsível, sem gerar surpresas ou um maior aprofundamento que evidenciem as particularidades do caso. O filme toca em um tema muito relevante sobre como encarar juridicamente a violência contra as mulheres, mas não apresenta uma resolução ao caso abordado e tampouco elucida o desfecho da história real nos créditos finais, criando uma expectativa que não consegue resolver.
“Feito Pipa” (CE), de Allan Deberton
Filme belo, singelo e sensível, que emociona e toca sem exagerar no tom ou cair em excessos de sentimentalismo. Belo trabalho dos atores — especialmente dos atores mirins —, bem realizado, com uma produção que caracteriza bem os lugares onde vivem os personagens. Por momentos, o filme apresenta problemas de ritmo, sobretudo na segunda parte, ao se deter em situações que fazem com que a história não avance. No início, o filme se concentra na questão queer do menino, mas isso se perde um pouco ao longo da narrativa, à medida que a segunda parte se concentra na questão do Alzheimer da avó, fazendo com que o primeiro tema se torne secundário.
Ao mesmo tempo, a transição para a apresentação dos sintomas de Alzheimer da avó do menino se mostra problemática: no início, ela não apresenta nenhum sinal da doença; depois, percebe-se uma transformação que acelera os sintomas. A relação com o pai também se mostra mal resolvida ao longo da narrativa, permanecendo com conflito estática, sem maior desenvolvimento.
MOSTRA DE CURTAS NACIONAIS
“Revelação” (RJ/SP/FR), de Gabriela I. Gaia
Os excessos narrativos e estéticos revelam, ao mesmo tempo, seus méritos e suas fraquezas. Méritos porque o filme brinca com sua própria abordagem, sem se levar a sério, para pensar questões de gênero e identidade a partir de um chá de revelação para descobrir o sexo do bebê que está por nascer. Por outro lado, o filme não consegue ir além do efeito narrativo que busca, ficando na superfície e sem maiores soluções criativas para o seu desenlace.
“Mulher Papaya” (SP), de Camila Tarifa
Abordagem original sobre uma mulher na terceira idade e a relação que possui com o marido e a empregada, revelando suas ânsias e rabugices sem apelar ao sentimentalismo ou assumir uma postura condescendente diante de seus atos. Em meio a um casamento sem amor e à velhice, o redescobrimento do desejo sexual e os efeitos que isso provoca são abordados de forma original e surpreendente no curta.
“Maior que a Casa Toda” (RO), de Fabiano Barros e Neto Cavalcanti
O filme cativa pela sua simplicidade e também por construir belos personagens e situações pelas quais atravessam os dois irmãos. Por outro lado, tive a sensação de que poderia ter aprofundado mais os vínculos entre os personagens.
“Divino: Sua Alma, Sua Lente” (MT), de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú
Filme que traz, de forma contundente, a questão da memória como resistência e o cinema como meio de construir essa memória, através da história de Divino Tserewahú, cineasta indígena da etnia Xavante. Através do olhar de Divino, o curta mostra a importância do cinema inserido na sociedade Xavante e como instrumento de luta e de construção de identidade.
“A Menina que Queria Ser Pedra” (MG), de Jackson Abacatu
Linda história, singela e sensível, que trabalha muito bem com o tema da contemplação e dos pequenos momentos, através do diálogo entre um garoto e uma garota que faz referência ao título. Belo curta de animação, que trabalha de forma muito criativa, visualmente, com o uso de páginas de livros que ganham vida, assim como com o uso de letras e palavras que adquirem um sentido poético.
“Pique-Pega” (RJ), de Mia Lima Rocha
Curta com uma história envolvente sobre dois personagens que se reencontram por acaso em uma festa, que acaba se transformando em um ajuste de contas. O filme constrói muito bem a escalada dessa tensão, à medida que os personagens descobrem os detalhes sobre o fato ocorrido e o que causou esse conflito, sempre a partir de seus pontos de vista. Por outro lado, esse bom crescimento dramático acaba criando um problema para o desfecho do filme, que não consegue criar um final à altura de seu desenvolvimento.
“Um Passeio” (SP), de Thalles Cabral e Fernanda Rocha
O curta possui um bom personagem, muito bem interpretado por Chirs Couto, sobre uma mulher septuagenária que sai com um homem que, depois, entende-se ser um garoto de programa. O filme trabalha bem com os estados emocionais da personagem, sempre diante de espelhos, refletindo sua própria insegurança e seu desejo de se tornar mais bela e produzida do que consegue ser. O final do filme indica, em um único diálogo, a sutileza de um drama que vem à superfície, resolvendo muito bem a história sem exagerar no tom.
“Fúrias” (RS), de Nica Maleoa
Filme que trabalha bem o estranhamento futurista do controle das máquinas sobre a sociedade, através de duas ciclistas lésbicas que não aceitam esse destino distópico para suas vidas. Curti o tom meio punk das personagens, que querem destruir as máquinas, mas senti que a relação entre elas ficou um pouco na superfície, sem maior aprofundamento, muito dependente do que fazer diante das máquinas.
“Pão Doce” (SP), de Wesley Gabriel Silva Santos
Por fim, um filme que fala sobre a questão do trabalho e seus dramas! Parece um tema de outra época, fora de pauta se comparado ao protagonismo das temáticas identitárias, mas que segue muito atual. Filme sensível, com uma história simples sobre um pai padeiro que precisa fazer hora extra no trabalho, questão que o impede de celebrar o aniversário do filho. Mesmo com um final previsível e que poderia ser melhor trabalhado, o filme ainda assim trabalha muito bem a direção de atores.
“씨발 (Shibal)” (SP), de João Rubio Rubinato
Uma grata surpresa, muito interessante e surpreendente pelo caminho que o filme toma, à medida que vai mostrando como tudo pode dar errado em um dia da vida do personagem principal. Filme com excelente roteiro e montagem, sem deixar cair sua força dramática, com soluções originais e sem cair em psicologismos fáceis. O final coroa bem a história, com humor e surpresa.
“As Gêmeas” (RJ), de Vanessa Aguiar
Filme com uma temática importante sobre a questão do abuso infantil, mas cuja realização e produção mostram muitas deficiências técnicas e narrativas. A versão do filme apresentada no festival mal tinha os créditos finalizados.
“Graxa e o Zepelim” (PE), de Camilo Soares
Proposta original de documentário que busca mesclar documentário, musical e ficção científica ao retratar a passagem do dirigível Graf Zeppelin pelo bairro do Jiquiá, no Recife, na década de 1930. No entanto, o filme se perde um pouco ao querer apresentar muitas coisas e referências em tão pouco tempo, tornando confuso o entendimento sobre aquilo que busca contar.