Páginas
Seções

Publicado por em set 4, 2025 em Artigos, Críticas, Festival de Gramado |

“A Natureza das Coisas Invisíveis”, por Rodrigo de Oliveira

Existe apenas uma certeza em nossa vida: todos morreremos um dia. Apesar disso, não gostamos muito de falar sobre a morte. É raro olharmos de peito aberto para a nossa finitude e encarar essa passagem como algo não necessariamente lúgubre ou pesado. A Natureza das Coisas Invisíveis consegue transmitir com muita sensibilidade e carinho esse momento, ao apontar sua câmera para duas crianças que vão descobrindo juntas, cada uma a sua maneira, esse caminho natural. Em sua estreia em longas-metragens de ficção, a diretora Rafaela Camelo entrega uma pequena pérola em formato audiovisual, mostrando talento para contar histórias pessoais e acolhedoras.

Na trama, conhecemos a pequena Glória (Laura Brandão) junto de sua mãe, a enfermeira Antônia (Larissa Mauro). Sem lugar para deixar a filha, Antônia acaba levando a menina para o hospital onde trabalha, fazendo com que ela conheça os pacientes e se ambiente aquele espaço. Certo dia, chega ao hospital a pequena Sofia (Serena), que estava só com a bisavó Francisca (Aline Marta Maia) quando esta sofreu um mal súbito. Sofia é deixada ao lado de Glória enquanto a bisavó é tratada. Uma rápida amizade surge entre as meninas. Quando a mãe de Sofia, Simone (Camila Márdila), chega ao hospital, seu sentimento de culpa é gigantesco. Afinal de contas, ela deixava a filha com a avó sem medo de que algo fosse acontecer. Antônia é sensível à situação de Simone e oferece ajudá-la. Com isso, Francisca é levada de volta para sua casa, em um sítio, para ser cuidada por parentes e amigas – todas mulheres – enquanto as meninas podem brincar juntas e Glória ter suas merecidas férias.

Claro que deixamos muitos detalhes de lado nessa sinopse e de propósito. A Natureza das Coisas Invisíveis é melhor aproveitado ao ter seus desdobramentos saboreados ao longo da história. A sinopse acima dá cabo de metade da trama. Rafaela Camelo comentou na coletiva de imprensa no Festival de Cinema de Gramado que pensou o longa em duas partes. A primeira, mais focada no hospital, e a segunda no sítio. Existe até uma música, de Milton Nascimento, que serve para ligar estas duas partes distintas da trama. Mas em ambas temos a curiosidade do olhar infantil em foco. Na primeira, Glória e Sofia vão se aproximando e dividindo uma com a outra algumas certezas da tenra idade. Além de ser uma maneira de conhecer cada uma, esses diálogos também nos informam muito sobre trechos importantes da história. Um deles é que Glória recebeu um coração transplantado. Então, quando Sofia comenta que tomar algo de um morto pode trazer maldições, Glória pensa não poder ser verdade, visto que em seu peito bate algo pertencente a quem já morreu. Essa lógica infantil é muito bem costurada na história e rende outras cenas belíssimas. Sem entrar em muitos spoilers, mas a explicação que Sofia dá para Glória sobre a morte de Bento é muito singela e é recebida com a naturalidade e a curiosidade que uma criança teria a respeito.

Filmes com atores infantis vivem ou morrem a partir da qualidade do elenco escalado. E a boa notícia é que Rafaela Camelo escolheu nos céus as atrizes que viveriam as pequenas Glória e Sofia. Tanto Laura quanto Serena são maravilhosas em seus papéis, muito naturais, evitando a armadilha da adultização infantil. Elas falam e se expressam como crianças, vivem dramas infantis e vão descobrindo com a vida algumas verdades que as acompanharão para todo o sempre. Rafaela é hábil em incluir essa sombra da morte, mas não de maneira traumática. E aqui é importante mencionar que A Natureza das Coisas Invisíveis tem um pé no fantástico, com espíritos que aparecem para se despedir dos vivos. Mas nada de assustador. A morte não é um ponto final, mas uma passagem para outro plano. Portanto, essas despedidas são encaradas de maneira muito natural por Glória, a jovem que parece ter um canal mais aberto com o além.

Se não bastassem as duas crianças atrizes, a diretora conseguiu um ótimo elenco adulto para dar mais força à produção. Camila Márdila e Larissa Mauro constroem personagens críveis naquele universo muito palpável – mulheres, mães solteiras, que tentam dar o melhor para suas filhas, mas que se sentem insuficientes. Simone trouxe a avó para sua casa para tentar cuidar melhor dela, mas isso entristeceu não só a idosa, como Sofia, que entende que o lugar da bisa é no campo. Esse é um dos pontos de cisão entre mãe e filha que terão de ser resolvidos. Já Antônia precisa trabalhar – e na área da saúde, sabemos que os horários costumam ser pesados. Ela quer que sua filha tenha férias, seja uma criança. E a aparição de Simone parece uma possibilidade de uma ajudar a outra. Ainda dignas de nota são as participações de Aline Marta Maria e Iara Miranda. A primeira consegue aliar bem os momentos de lucidez com os de confusão por conta da doença. A segunda é uma benzedeira real, que fez testes para o papel, e se sai muito bem como uma amiga de Francisca.

Com ritmo mais lento, fazendo com que adentremos naquele espaço de maneira paulatina, A Natureza das Coisas Invisíveis tem uma atmosfera que lembra um pouco os filmes de Juliana Rojas – e ver o nome da cineasta como uma consultora de roteiro nos créditos finais nos deixou mais certos desta ligação. Tanto Rojas quanto Camelo constroem ambientes que bebem no imaginário popular, na presença de uma força maior, mas muito interessadas em como pessoas reais, de carne e osso, se relacionam com o fantástico. Nunca é o extraordinário pura e simples, mas em como isso influencia nas vidas daquelas pessoas e em como elas podem evoluir. O desfecho, muito carinhoso (e um tanto cômico), fecha de maneira inusitada uma obra que deve ficar na memória por muito tempo. Exibida em mostra paralela em Berlim, o filme deve chegar aos cinemas em novembro.

Este texto é parte da revista Almanaque21 Festivais: 53º Festival de Cinema de Gramado. Para ler a cobertura completa, procure a revista nas bancas digitais (Claro Banca, Uol Leia+, Aya Bancah) ou no site almanaque21.com.br.