“Um breve panorama sobre o Festival de Gramado”, por Cristian Verardi

I
A ARTE DA SOBREVIVÊNCIA E DA REINVENÇÃO
Entre os dias 13 e 23 de agosto de 2025 a serra gaúcha tornou-se mais uma vez o foco dos holofotes da indústria cinematográfica brasileira. O Festival de Cinema de Gramado chegou a sua 53° edição trazendo na bagagem uma história invejável de celebração ao cinema nacional, além dilemas, como a responsabilidade de uma constante busca por reinvenção; contudo a longevidade do evento atesta a sua astuciosa capacidade de adaptação.
O Festival de Cinema de Gramado sempre foi hábil em moldar-se diante das novidades e adversidades, seja lidando com a censura e as pressões políticas do período da Ditadura Militar, com a escassez de produções brasileiras ocasionadas pelos equívocos da Era Collor, quando voltou seu olhar para o cinema latino-americano, ou burlando as constantes crises de patrocínio e financiamento. Hoje os desafios mercadológicos e artísticos convergem na busca de um diálogo na interseção entre o cinema, o streaming, e a utilização de novas ferramentas de linguagem no meio audiovisual, como a inteligência artificial, visto que discorrer a respeito da dicotomia entre o cinema autoral e o comercial parece ser uma nota tão datada quanto divergir sobre o pomposo tapete vermelho, esse palco simbólico que busca reviver o glamour de eras passadas, e que se tornou um artifício indissociável do festival.
II
UM PANORAMA SINGULAR
Nesta 53° edição, a exibição especial no Palácio dos Festivais de dois episódios da série “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, produzida pela HBO MAX em parceria com a Morena Filmes, e dirigida por Marcelo Gomes e Carol Minêm, teve generosa recepção popular, evidenciando o estreitamento das relações com produções advindas das mídias televisivas, uma inclusão que vinha sendo gradualmente articulada desde edições passadas. Porém, uma mostra paralela destinada a filmes gerados através de inteligência artificial provocou mais polêmicas e reprimendas do que afagos. Apesar de justificar sua existência amparando-se no questionamento: Como a inteligência artificial está transformando a criação audiovisual? A controvérsia asseverou que o tema ainda precisa ser discutido e assimilado com cautela pelo setor audiovisual.
Entretanto, a abertura oficial do festival apresentou-se acertada com a exibição fora de competição de “O Último Azul”, badalada produção de Gabriel Mascaro, vencedora do Urso de Prata no último Festival de Berlim. Num Brasil distópico, onde os idosos são obrigatoriamente enviados para misteriosas colônias habitacionais ao completarem 75 anos, Tereza (Denise Weinberg) se nega a aceitar este destino, e embarca numa jornada sem rumo pelos rios da Amazônia em busca de autonomia da própria existência. Uma curiosa reflexão sobre etarismo e livre-arbítrio, que evita cair nas armadilhas fáceis do sentimentalismo com uma trama que equilibra contemplação e humor, e que tem na presença de Denise Weinberg a sua força motriz. De início a opção de Mascaro pelo aspecto 4:3 gera estranheza, visto que a amplitude da região amazônica parece exigir de nosso olhar uma tela widescreen, porém, quando o estranhamento inicial se dissipa, conseguimos focar no desenrolar dos dramas humanos que ocorrem aprisionados entre o formato quadrado em meio ao exuberante cenário amazônico.
Os filmes indicados para a competição oficial de longas-metragens estruturaram um panorama singular do cinema brasileiro contemporâneo. O Festival de Gramado sempre foi notório por se amparar numa fórmula segura ao balancear obras de apelo popular e filmes mais arrojados, numa tentativa justa de dialogar tanto com público avido pelo tapete vermelho, quanto com a crítica e a cinefilia em geral. Se o equilíbrio das partes ocorreu no diálogo com o cinema de gênero visto entre “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, e “Papagaios”, de Douglas Soares, em contraponto às estruturas mais intimistas e particulares de “Nó”, de Laís Melo, e “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, a seleção encontrou seus corpos estranhos em “Querido Mundo”, de Miguel Falabella e “Sonhar com Leões”, de Paolo Marinou-Blanco; enquanto um lutava com a indecisão da linguagem entre assumir-se cinema ou teatro, o outro pecava pelo tom desregulado e pelo excesso de ironia, ao abordar um tema polêmico como o direito a eutanásia.
“Cinco Tipos de Medo” (MT) acabou laureado como o grande vencedor desta edição, arrematando os Kikitos de filme, roteiro, montagem, e melhor ator coadjuvante para o rapper Xamã. A intensa reação do público ao término da exibição já indicava que o diretor, roteirista, e montador, Bruno Bini, havia acertado a sintonia com a plateia, algo que no final das contas acabou também refletindo na opinião do júri oficial. Na trama, cinco pessoas têm seus destinos interligados devido a uma ação violenta. O roteiro estabelece uma estrutura polifônica, onde o músico Murilo se envolve com a enfermeira Marlene, que se encontra num relacionamento abusivo com o traficante Sapinho, que por sua vez é alvo de Luciana, uma policial em busca de vingança, enquanto o advogado Ivan se envolve no caso motivado por obscuras questões pessoais. O grande mérito de “Cinco Tipos de Medo” está na habilidade com que entrelaça situações, entre idas e vindas temporais, num roteiro que consegue dar conta de seus desafios estruturais ao mesmo tempo em que se sustenta como filme de gênero e denúncia social.
“Papagaios” (RJ), de Douglas Soares, parte da radiografia de um personagem insólito, Tunico, interpretado por Gero Camilo, um notório papagaio de pirata, do tipo que não perde a oportunidade de aparecer ao fundo de uma reportagem de televisão. Seguimos a rotina desta figura pitoresca em sua busca por holofotes, quando surge Beto (Ruan Aguiar), um jovem que se introduz na vida de Tunico como um potencial aprendiz das artimanhas do inusitado ofício. Porém, as reais intenções de Beto se revelam por demais soturnas, e uma gradual mudança de tom nos leva enfim para um legítimo thriller de psicopata passado no subúrbio carioca. Gero Camilo compõe com brilhantismo e dignidade um personagem que poderia apenas soar como anedótico, portanto, não houve surpresa quando do anúncio de melhor ator. “Papagaios” ainda levou os prêmios de direção de arte, desenho de som e melhor filme pelo júri popular. A sequência em que Tunico e Beto ensaiam diante do espelho como se posicionar atrás dos repórteres ao som de “Naquela Mesa”, de Nelson Gonçalves, se destaca como um dos momentos mais inspirados do filme.
“Nó” (PR), de Lais Melo lida com uma situação familiar e intimista, elaborando um olhar formalista na composição das imagens, ao mesmo tempo em que é pleno de afeto na observação de suas personagens. Glória (Patrícia Saravy) é uma operária de fábrica recém divorciada, que além de enfrentar dificuldades rotineiras para criar três filhas adolescentes, vive o dilema de competir com os colegas por uma promoção no local de trabalho. Pela sensibilidade como retrata o cotidiano de um núcleo familiar composto só por mulheres, e pela maneira que evidencia as engrenagens tortas que por vezes se impõem sobre nossas escolhas, “Nó” arrebatou os prêmios de direção, fotografia, e melhor filme pelo Júri da Crítica. Patrícia Saravy entregou uma das performances mais arrebatadoras vistas no cinema brasileiro recente, e o fato de perder o Kikito de atriz para Malu Galli gerou certo grau de perplexidade. Apesar do inegável talento de Galli, seu registro em “Querido Mundo”, de Miguel Falabella, não arrisca além do convencional, enquanto Saravy arde com intensidade incomum em cena.
O enredo de “A Natureza das Coisas Invisíveis” (DF), de Rafaela Camelo, despertou múltiplas sensações no público do festival, transitando com habilidade por temas sensíveis sem apelar para caminhos triviais, e surpreendendo ao inserir elementos fantásticos sem que estes ficassem deslocados na trama. Glória (Laura Brandão) é uma garotinha de 10 anos que passa os dias perambulando pelo hospital onde sua mãe trabalha, e a chegada de outra criança, Sofia (Serena), que acompanha a avó adoentada (Aline Marta Maria), impõe uma nova dinâmica a sua rotina, enquanto uma amizade se forma e ambas tentam compreender seus papéis num ambiente de vida e a morte. Mas é quando o cenário muda para uma paisagem bucólica que o filme revela sua verdadeira natureza. Rafaela Camelo optou pela delicadeza sem entregar pieguice, e acabou conquistando o público e os prêmios de atriz coadjuvante para Aline Marta Maria e melhor trilha sonora musical para Alekos Vuskovic.
Quanto aos ditos corpos estranhos da mostra nacional, “Querido Mundo” (RJ), de Miguel Falabella, de início chama a atenção pelo seu estudado artificialismo imagético, mas não consegue se distanciar de sua origem, uma peça teatral escrita por Falabella e Maria Carmem Barbosa. Demasiadamente preso a um texto que dita a necessidade de impactar a cada fala, a produção acaba esgotando suas possibilidades enquanto cinema, e aquilo que funciona nos palcos nem sempre serve para as telas.
No entanto, “Sonhar com Leões” (SP), filme protagonizado por Denise Fraga, suscita outras questões. Quais fatores realmente determinam a nacionalidade de uma produção? A mera assinatura de um produtor? A origem de seu financiamento? Ou o quanto o filme dialoga culturalmente com o seu país? Durante a exibição desta coprodução internacional passada entre Portugal e Espanha, a sensação mais nítida era a de estar diante de uma produção portuguesa estrelada por uma atriz brasileira. O próprio senso de humor que impregna a obra é sustentado por uma ironia típica do cinema português, mas sem o refinamento do cinema de um João César Monteiro. Mas são indagações que dificilmente irão obter respostas concretas, dependendo do viés de cada observador. Com relação a trama, acompanhamos a saga da personagem de Denise Fraga, uma doente terminal, em sua busca para cometer suicídio de forma indolor e humanitária. Houve quem reclamasse da ausência de um alerta de gatilho antes da exibição, quem achasse vulgar a forma como o tema foi apresentado, assim como ocorreu quem embarcasse na proposta franca de lidar com possibilidade da eutanásia. De fato, “Sonhar com Leões” foi a obra mais anômala vista na tela de Gramado este ano.
No saldo final desta maratona fílmica vivenciada no Festival de Cinema de Gramado, ficaram evidentes os dilemas e acertos da atual cinematografia brasileira, onde a tela serviu como espelho amplificador de nossos contrastes. E talvez a grande vencedora desta edição tenha sido a benéfica descentralização do eixo de produções Rio-São Paulo, com obras premiadas oriundas de regiões como Mato Grosso, Paraná e Distrito Federal. Entre as polêmicas e exaltações habituais dos circuitos de festivais, Gramado segue se reinventando como um vital palco celebratório do cinema nacional.
Cristian Verardi