“O que eu vi e vivi no Festival de Gramado”, por Cristiano Aquino

Findo mais um Festival de Cinema de Gramado, saio satisfeito com a qualidade da maioria dos filmes selecionados pelos curadores e demais membros dos diversos comitês de seleção.
O Festival iniciou com um filme fora de competição, O Último Azul, do diretor Gabriel Mascaro, com Denise Weinberg e Rodrigo Santoro, filme que já iniciou o festival impactando com a mudança de cor do tradicional tapete vermelho, na abertura do festival o tradicional corredor onde transitam famosos e outros nem tanto, o tapete era de um azul vibrante, cor que apesar de meu gremismo, não simpatizei até ver o filme e entender o real significado da cor.
Santoro se destacou no primeiro fim de semana do Festival de Gramado, sendo agraciado com o Troféu Kikito de Cristal, homenagem a artistas por sua carreira internacional. Rodrigo Santoro destacou a importância do prêmio em sua coletiva de imprensa na Cristais de Gramado, onde se emocionou lembrando de diversos momentos de sua carreira e do fato de ser o primeiro prêmio que recebeu por sua carreira internacional. Chamou a atenção o carinho e atenção dedicados por Santoro à equipe que produz as peças de cristal, perguntou o nome dos profissionais, quis conhecer as etapas do processo e se mostrou interessado no trabalho e feliz em participar.
O Último Azul conta a história de um Brasil onde os idosos ao atingir certa idade são enviados para um local onde viverão os últimos dias de vida. Denise Weinberg é Tereza, uma mulher que se recusa a ser enviada para a Colônia antes de realizar alguns de seus sonhos, nesta busca ela acaba pegando uma carona no barco de Cadu, personagem de Rodrigo Santoro, que a leva em uma imersão na Amazônia Profunda e seus mistérios. Vale ressaltar que o filme é de Tereza sendo ela a personagem que carrega a trama, sendo Cadu e o de outros personagens figuras secundárias que sustentam junto com Tereza toda a história e a ajudam na busca por seu objetivo. O Último Azul levou o Urso de Ouro de Berlim e é um dos candidatos brasileiros a concorrer ao Oscar de filme internacional em 2026.
Os longas metragens nacionais competindo no festival começaram a ser exibidos no sábado com o filme Nó, dirigido por Laís Melo. O longa conta a história de Glória, uma mulher que saiu de um casamento abusivo com suas 3 filhas e luta por uma promoção na fábrica de pipoca doce onde trabalha como operária.
Patrícia Saravy criou uma Glória coberta de vontade de lutar por suas filhas, por uma promoção na empresa e pela necessidade de se livrar de um ex-marido perseguidor. Merecia o Kikito de melhor atriz do festival na humilde opinião deste que vos fala.
Seguimos a mostra competitiva com Papagaios, dirigido por Douglas Soares e protagonizado por Gero Camilo e Ruan Aguiar. O filme, baseado em uma situação real do cotidiano do país, conta a história de pessoas que tem como objetivo de vida aparecer em reportagens televisivas por cima do ombro do repórter. Gero Camilo brilha como Tonico, o maior papagaio de pirata do Brasil e que acaba ensinando Beto, o personagem de Ruan Aguiar a seguir seu apaixonado ofício. Gero Camilo ganhou o Kikito de melhor ator por seu Tonico, Papagaios teve Léo Jaime em uma participação mais do que especial como ele mesmo no filme.
Um dos grandes momentos do festival foi a coletiva com Mariza Leão, que junto com Sérgio Resende criou a Morena filmes há 50 anos e foi justamente agraciada com o Troféu Eduardo Abelin por sua vasta colaboração com o cinema nacional. Em sua coletiva, Mariza destacou a importância de separar os editais de incentivo a produção cinematográfica em corredores com editais específicos para primeiros projetos, cotas sociais, raciais e regionais, colocando novamente a necessidade de uma discussão sobre a distribuição equitativa de recursos.
Continuamos a mostra competitiva de longas metragens nacionais com o filme mais sensível do festival
A mostra competitiva seguiu com o filme dirigido por Miguel Falabella, Querido Mundo, com Eduardo Moscovis, Danielle Winitz, Marcelo Novaes e Malu Gali, ganhadora do KIKito de melhor atriz, que vive Elsa, uma mulher em um casamento fracassado que se vê em uma situação inimaginável que mudará sua vida para sempre.
Du Moscovis é Oswaldo e junto com Malu criam um diálogo sensível sobre desilusões e recomeços. Gostei bastante do filme, mas em meio a filmes maiores selecionados pela curadoria do Festival formada por Marcos Santuário, Caio Blatt e Camila Morgado, Querido Mundo se tornou o longa-metragem de ficção mais fraco da competição.
Continuamos a mostra competitiva de longas metragens nacionais com o filme mais sensível do festival. A Natureza das Coisas Invisíveis, dirigido por Rafaela Camelo, conta a história de duas meninas, Glória e Sofia, interpretadas pelas atrizes Laura Brandão e Serena, que entregam atuações delicadas, principalmente no que se refere aos temas tratados no filme, as duas meninas se conhecem em um hospital, onde uma é filha de um funcionária e a outra aguarda a melhora de uma familiar, bisa Francisca, interpretada pela Aline Marta Maia que venceu o Kikito de atriz coadjuvante. A grande atuação das meninas e os diferentes ambientes onde as mesmas convivem tornam o trabalho de direção de Rafaela Camelo primoroso e merecidamente reconhecido com o Prêmio Especial do júri do Festival.
O troféu Oscarito, que agracia artistas com uma carreira que marcaram o cinema nacional, foi merecidamente entregue a Marcélia Cartaxo, que em sua coletiva com a imprensa contou sobre sua trajetória desde A Hora da Estrela, onde o Brasil e o mundo percebeu seu talento, sendo a primeira atriz Brasil a tá har um Urso de Prata em Berlim. Marcélia destacou a emocionante ovação que recebeu com a premiere de Pacarrete em Gramado, onde foi aplaudida durante a exibição do filme e diversas vezes ao final da exibição, sua atuação em Pacarrete lhe deu seu primeiro KIKito de melhor atriz em 2019, conquistando uma segunda estatueta por sua interpretação em Mãe, de 2022.
O último filme em competição a ser exibido foi Cinco tipos de medo, dirigido por Bruno Vini e primeiro filme do Mato Grosso a ser exibido no Festival de Gramado. O filme conta diversas histórias entrelaçadas sobre diferentes pontos de vista, com um roteiro e montagem primorosos onde todas as ações se encaixam sem furos, um filme que mistura ação e suspense e nos faz prender a respiração do início ao fim. Um filme policial de verdade e merecedor dos Kikitos de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Melhor Ator Coadjuvante para Xamã, que junto com Bella Campos, João Vitor Silva e Bárbara Colen compõe o elenco principal da trama.
Os 53 anos do festival trouxeram uma mostra variada com histórias muito diferentes e interessantes.
Cristiano Aquino
Programa Fora de Foco e Cinema de Peso