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Publicado por em mar 25, 2014 em Artigos |

Na periferia do cinema

por Ivonete Pinto As extremidades marginais do cinema sempre existiram. Resistência à hegemonia do cinema americano e europeu, as cinematrografias periféricas, no entanto, só ganharam visibilidade e, eventualmente, alguma projeção, com as premiações em festivais de cinema como os de Cannes, Veneza, Berlim e Locarno, só para ficar entre os mais conhecidos, cujos programadores passaram a viajar um pouco mais longe em busca de novas linguagens, novas estéticas. Enfim, novos cinemas. Independente do aval desses festivais, vários países mantêm produções constantes, com números, às vezes, significativamente altos, como é o caso da Índia. Países que vivem sua cultura intensamente e, com ou sem subsídios governamentais, movimentam pequenas indústrias que geram emprego, abastecem o mercado local e regional – caso do Egito – e constroem gêneros narrativos recheados de uma criatividade que encanta platéias sedentas por exotismos ou, simplesmente, cansadas de velhas imagens. Talvez seja o que vem acontecendo com o cinema da Armênia, não em termos quantitativos, mas qualitativos. Enquanto tenta reconstruir o país após a independência da ex-URSS,...

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Publicado por em mar 25, 2014 em Artigos |

O cinema do segredo e do crime (Sobre Alfred Hitchcock)

por Enéas de Souza Temos em Alfred Hitchcock a criação do espetáculo para encarar o Horror, a Ameaça, que é insidiosa, e que vem, em Os Pássaros, da passagem metafórica de periquitos (Love Birds) para aves cada vez mais ameaçadoras, uma metamorfose, um translado, que finda com a plumagem da mais negra escuridão. Numa palavra: o triunfo dos corvos. E dos corvos que dominam – cena final – todo o espaço do cenário, por extensão, da catástrofe, do mal, da destruição, dominando o mundo. Mas Hitchcock não é um homem que prega declaradamente o catastrofismo. Ele mostra o desastre envolto em cores palatáveis, a densa construção da arte em tempos do espetáculo; só que, para ele, o espetáculo assume a natureza crítica. É espetáculo mais Guy Débord, é espetáculo mais juízo de valor. E avança, como uma seda inquietante sobre a visão do francês, porque trabalha com o estranho e com o mal-estar da cultura. E olha de frente as mudanças da sociedade contemporânea, sempre vista pelo lado antropológico,...

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Publicado por em mar 25, 2014 em Artigos |

Confissões de um homem maduro (Entrevista com Domingos de Oliveira)

por Daniel Feix e Roger Lerina A data para o bate-papo com o autor de mais de 50 peças, não poderia ser mais propícia: 27 de março, Dia Mundial do Teatro. No final da tarde da última quinta-feira, o dramaturgo, ator, diretor teatral, roteirista, cineasta, cantor e músico Domingos Oliveira conversou com Zero Hora no terraço de um hotel da Capital, ao lado de um piano e de costas para a tempestade que começava a se debruçar sobre a cidade. “Só a arte salva”, ele assegura, com um copo de uísque cheio na mão, preparado por Priscilla Rozenbaum. “Coloquei água, tá, amor?”, avisa a companheira de Domingos há 26 anos e atriz de seus filmes e espetáculos. “São 17h, e hoje você ainda precisa dar aula”, ela justifica. Aos 71 anos, o aforista de botequim e filósofo do cotidiano segue buscando a própria salvação, produzindo peças, escrevendo roteiros e rodando filmes como usina criativa incansável. Em Porto Alegre, acompanhou uma mostra de seus filmes, ministrou um workshop, apresentou um...

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Publicado por em mar 25, 2014 em Artigos |

Testemunhas do suicídio (A Ponte, 2006)

por Ticiano Osório Antes que você comece a ler este texto sobre o documentário A Ponte (The Bridge, EUA, 2006), inédito nos cinemas gaúchos e lançado diretamente em DVD, aviso: vou citar passagens que podem estragar o prazer cinematográfico de quem ainda não assistiu. Se é que pode haver “prazer” em um filme sobre suicídio – e eis um dos tantos pontos polêmicos da estréia como diretor de Eric Steel, co-produtor de outros dois longas de temática mórbida, As Cinzas de Ângela (de Alan Parker) e Vivendo no Limite (de Martin Scorsese), ambos de 1999. Mas, enfim, o que se propõe aqui é menos um comentário e mais uma conversa sobre o filme. A ponte do título é a famosa Golden Gate, em São Francisco (EUA). Já entrando no terreno das interpretações, também poderia ser a ponte para outra vida. Um dos entrevistados por Steel arrisca uma explicação sobre o fascínio que a ponte exerce sobre os suicidas: “Ela contém uma falsa promessa romântica”. Outro diz entender porque o...

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Publicado por em mar 25, 2014 em Artigos |

Um clássico para sempre moderno (Acossado, 1959)

por Flávio Guirland Falar de Acossado, de Jean-Luc Godard, pressupõe um risco. Não só porque o filme foi um “divisor de águas” que marcou verdadeiramente a entrada do cinema no âmbito das narrativas da modernidade, mas também por ter sido uma das obras mais comentadas de todos os tempos. O filme foi um dos primeiros da Nouvelle Vague, o movimento liderado por jovens críticos de cinema que escreviam na revista Cahiers du Cinema, encabeçada pelo notório André Bazin. Esses novos realizadores visavam, acima de tudo, a romper com as convenções instituídas por aquilo que eles chamavam de “o cinema do papai” (le cinema de papa), isto é, as produções insuportavelmente conservadoras do cinema francês e, de quebra, a estabelecer um contraponto estilístico ao cinema comercial produzido por Hollywood. O seu lançamento, no já distante ano de 1959, configurou-se como um ato de ousadia e, como era de se esperar, suscitou discussões apaixonadas. Havia os que o defendiam, em consonância com seu caráter revolucionário. Havia aqueles que o atacavam, em...

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Publicado por em mar 25, 2014 em Artigos |

Filme de horror não-ficcional (Procedimento Operacional Padrão, 2008)

por Marcelo Oliveira da Silva Independente do que o futuro reserve ao Iraque, a incursão dos Estados Unidos será sempre lembrada no país pelos abusos infligidos aos prisioneiros iraquianos na penitenciária de Abu Ghraib, na periferia de Bagdá. Através de entrevistas com aqueles guardas e alguns de seus superiores, o filme Standard Operating Procedures (em tradução aproximada, algo como “procedimentos operacionais padrões”) examina as fotos de iraquianos nus, com o rosto coberto por calcinhas e sutiãs, obrigados a compor situações embaraçosas com outros prisioneiros igualmente desmoralizados, e reconstitui o contexto daquela macabra luxúria militar. Mais do que falar sobre o caso, Errol Morris, autor do primeiro documentário a entrar na mostra competitiva em 58 anos do Festival do Cinema de Berlim, conversou com a imprensa sobre a própria natureza do filme documental. Morris entrevistou na maioria dos casos ex-soldados que foram enviados ao Iraque em 2004, quando recém saíam da escola. Vemos apenas seus rostos nos olhando nos olhos. O espectador tem o mesmo ponto de observação de Morris....

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