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Publicado por em mar 6, 2020 em Artigos |

O começo de tudo

O começo de tudo

Por Roberto Cotta*             O medo esconde a selvageria espalhada em nossas veias. Em certo momento, o tigre e a moça se deparam com um muro alto, bem mais vasto que o mundo onde habitam. Surge, então, o impasse: pular ou continuar sob proteção da mesma redoma? Entre metáforas e reflexões, Só sei que foi assim (Giovanna Muzel, 2019) mostra a passagem à vida adulta como um doloroso exercício de desapego. Para uma juventude cada vez mais acostumada com os salamaleques urbanos, tem sido uma batalha sair do casulo e enfrentar o tédio da selva cotidiana. O tempo passa, o tigre some na floresta e a moça se despede do amigo. Vida que segue, indomável.                 Eleita pela Associação de Críticos do Rio Grande do Sul (ACCIRS) como melhor curta gaúcho de 2019, a animação coloca a sutileza de sua técnica a serviço de uma memorabilia de gestos banais apresentados de forma mágica. O primeiro plano já traz uma tela dividida em três, com imagens de um caneco...

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Publicado por em mar 1, 2020 em Artigos |

Memórias do subsolo: relatos de naufrágio e descenso

Memórias do subsolo: relatos de naufrágio e descenso

Por Carla Oliveira Em uma mostra de cinema coreano apresentada no Espaço Nimas, em Lisboa, no ano de 2017, o crítico de cinema Jung Sung-il explicou à plateia que uma das essências do cinema e da cultura coreana é a expressão do sentimento han. Controverso e dito de difícil entendimento pelos ocidentais, o han pode ser definido como uma comoção, uma vivência individual ou coletiva de humilhação, dor, frustração, luto e ressentimento, em uma intensidade tão profunda, que poderia até justificar um ato de vingança. Jung Sung-il debatia com o público o filme Para além do tempo (Chun nyun hack, 2007), de Im Kwon-taek, diretor de mais de uma centena de filmes, considerado o pai do cinema coreano contemporâneo. Nessa obra, era apresentado o pansori, apregoado como o som do han, uma tradição musical narrativa coreana, originada no século XVII, que atingiu seu auge no século XIX, quando passou a ser performada por pessoas em condições econômicas e sociais desfavoráveis. No século XX, quando o centenário cinema coreano nasceu...

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Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Dor e Glória, o exercício de lidar com a perda

Dor e Glória, o exercício de lidar com a perda

Por Rafael Valles Ao analisar a obra de Almodóvar, não faltariam adjetivos para descrevê-la: melodramático, intenso, trágico, provocador. Todos esses termos identificam tendências nos seus filmes, mas também caem em lugares comuns identificáveis por qualquer espectador que tome conhecimento de sua obra. Um caminho interessante para descobrir mais a fundo a filmografia de Almodóvar está na forma como os seus personagens são construídos. Venho aqui falar sobre uma questão que percorre as suas produções e também se faz presente no seu mais novo filme, Dor e Glória (2019). Almodóvar é um cineasta que reflete constantemente sobre a questão da perda. Em Tudo sobre minha mãe (1999), Manuela perde o seu filho, Esteban, quando este, no dia do seu aniversário, é atropelado por um carro; isso faz com que ela retorne para Barcelona, 18 anos depois, para reencontrar o pai de seu filho. Em Fale com ela (2002), ao ser acusado por supostamente ter estuprado e engravidado a paciente Alicia – que se encontra em estado vegetativo – Benigno perde...

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Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Parasita: Corpos estranhos

Parasita: Corpos estranhos

Por Daniel Rodrigues O filósofo polonês, Zygmunt Bauman, grande leitor dos nossos tempos, bem descreve que a “modernidade líquida” em que se vive gera, por conta e culpa da globalização descontrolada, o que ele chama de “mixofobia urbana”, a tensão permanentemente desagradável e perturbadora da estranheza ao outro. Essa presença irritante entre estranhos da mesma cidade, vizinhos mas separados pelas diferenças sociais por meio de espaços “interditados”, é, segundo ele, “uma fonte inesgotável de ansiedade e de uma agressão geralmente adormecida, mas que explode continuamente”. O longa sul-coreano Parasita, escrito e dirigido por Bong Joon-ho, é, mais do que uma confirmação ou superação de expectativa, um dos filmes mais perspicazes na leitura destes tempos líquidos. Mordaz e crítico à sociedade capitalista, a obra expõe uma alegoria da vida real, em que, recorrendo aos mais animalescos recursos de sobrevivência nesta selva chamada cidade, todos os caminhos dessa violência sistêmica levam a uma coisa: a morte. Grande vencedor do Oscar de 2020, levando de forma inédita para um filme falado em...

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Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Dor e Glória: Retrato da formação de um artista

Dor e Glória: Retrato da formação de um artista

Por Eron Duarte Fagundes Como tantos outros diretores de cinema (o italiano Federico Fellini é o caso mais badalado na história do cinema), o espanhol Pedro Almodóvar, numa curva da estrada em que lhe bate dúvidas na continuidade de sua filmografia, decide tornar isso —a crise de criatividade— a matéria de sua reflexão cinematográfica. É o que ele faz em Dor e glória (Dolor y gloria; 2019). É seu oito e meio: sua paixão e sombras, seu “all that jazz”. Ainda que o cineasta negue uma factual autobiografia, pode-se dizer que, espiritual e conceitualmente, a personagem de Salvador Mallo refaz na narrativa o próprio realizador do filme —não somente por se tratar dum homem de cinema que espelha seu autor ou por situações humanas e sexuais assemelhadas com aquilo que se conhece da vida privada de Almodóvar, mas ainda por uma visão de mundo e do universo da arte intrínseca àquilo que se observa pelos filmes feitos pelo diretor há tantas décadas. À parte estas relações que pouco importam...

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Publicado por em fev 28, 2020 em Artigos |

Parasita – Sobre porões, subsolos e escadarias

Parasita – Sobre porões, subsolos e escadarias

Por Jaqueline Chalaadaptado a partir do roteiro do programa Na Trilha da Tela que vai ao ar aos sábados, 18h, pela FM CULTURA. Desde que surgiu nos cinemas, Parasita deixou claro que era um dos grandes, senão o grande filme do ano de 2019. Um ano que teve o tema da desigualdade social em destaque através de outras ótimas produções, como Coringa, Os Miseráveis e também o brasileiro Bacurau. O que diferencia Parasita dos demais, porém, é a facilidade com que Bong Joon-ho transita por vários gêneros, da comédia ao terror, sem perder o ritmo da narrativa sequer por um instante. Repleto de camadas e de simbolismos, Parasita é um filme que parece “atravessar” os demais por sua construção e conexão com a realidade em várias partes do mundo. Não por acaso, recentemente a BBC fez uma excelente reportagem sobre os porões reais habitados pela população pobre de Seul, os Banjihas.          Parasita traz na arquitetura dos porões os símbolos da opressão de uma classe social que se espreme...

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