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Publicado por em jul 17, 2020 em Críticas |

Passagem em aberto

Passagem em aberto

Maurício Vassali “Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada.”. O que a Maria escrita por Conceição Evaristo enfrenta a partir de aí é a própria tragédia, diferente da trajetória da personagem, de mesmo nome, escrita por Juliana Balhego em Quero ir para Los Angeles. A conversa entre o curta e o conto presente na coletânea Olhos D’água, contudo, está para além da simples coincidência de Marias protagonistas e da menção de Evaristo no filme: ambas as autoras retratam vivências de mulheres negras contemporâneas. A primeira como empregada doméstica, a segunda como universitária. No curta, Maria é uma estudante de publicidade que planeja sua viagem à cidade dos sonhos. Moradora da periferia de Porto Alegre, ela divide seu tempo entre o estágio em uma agência e o novo emprego...

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Publicado por em set 10, 2018 em Críticas, Festival de Gramado |

A praia de Nara

A praia de Nara

por Juliana Costa, especialmente para o site da ACCIRS Como o mar que desmancha nossos desenhos na areia, violento e delicado, assombroso e inexorável, assim é Guaxuma (2018), novo curta-metragem de Nara Normande. Destaque em todos os festivais por onde tem passado, o grande pequeno filme da alagoana arretada também fez história no 46º Festival de Gramado, recebendo merecidamente o prêmio de melhor curta-metragem brasileiro. “Se você abrir uma pessoa, encontrará paisagens, se me abrir, encontrará praias.”, disse Agnès Varda no início de As Praias de Agnès (2008), talvez seu filme mais autobiográfico. A frase, bem como o filme de Varda, sem dúvida ecoa em Nara, que generosamente nos leva no colo, sem medo nem embaraço, por uma viagem através da paisagem da alma de sua infância. Da técnica de animação de areia, rigorosamente escolhida para dar movimento as suas memórias, ficamos com a efemeridade das imagens, assim como da vida, fantasmas de areia que somos. Conferindo um corpo robusto às reminiscências de Nara, ouvimos um relato em primeira...

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Publicado por em set 3, 2018 em Críticas, Festival de Gramado |

Sem moradia e sem esperança

Sem moradia e sem esperança

por Mônica Kanitz, presidente do Júri da Crítica da Mostra Gaúcha de Curtas-metragens do 46º Festival de Cinema de Gramado, especial para o site da ACCIRS Sem Abrigo, de Leonardo Remor, foi o título escolhido pelo júri da ACCIRS para receber o prêmio da crítica na mostra de curtas-metragens gaúchos do Festival de Cinema de Gramado de 2018. Entre os elementos que justificaram a escolha estão uma combinação caprichada de movimentos de câmera com os silêncios pertinentes da personagem protagonista, vivida com muita sensibilidade pela atriz Rejane Arruda – que ganhou, merecidamente, o prêmio de melhor atriz da mostra. O filme ainda foi vencedor dos troféus de montagem e fotografia, respaldando a escolha do júri da crítica. Leonardo Remor, que também é pesquisador nas linguagens de mídia e artista visual, propõe um olhar atento e humanizado sobre uma figura cada dia mais presente nas grandes cidades: o morador de rua. Nas primeiras cenas de Sem Abrigo, Valéria lembra uma mulher comum, circulando apressada pelas ruas do centro de Porto Alegre em...

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Publicado por em dez 7, 2017 em Críticas |

Premiado em Cannes, filme brasileiro narra vida e morte de aventureiro na África

Premiado em Cannes, filme brasileiro narra vida e morte de aventureiro na África

Por Daniel Feix, publicado em Zero Hora em 01 de novembro de 2017 Não é a toda hora que um filme brasileiro ganha um prêmio no Festival de Cannes. Gabriel e a montanha, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, levou dois dos cinco troféus distribuídos aos longas-metragens da Semana da Crítica, tradicional seção do evento francês cujo júri, neste ano, foi presidido por Kleber Mendonça Filho, o diretor de O som ao redor (2012) e Aquarius (2016). Como parte significativa da melhor produção nacional recente, Gabriel e a montanha se situa entre o registro documental e a reinvenção ficcional, porém, com duas características bem particulares: trata-se de um filme-homenagem rodado inteiramente na África. É o segundo longa de Fellipe Barbosa (o primeiro foi o bom Casa grande, de 2014). Reconstitui a aventura de um amigo de infância do realizador, o carioca Gabriel Buchmann, que morreu percorrendo uma trilha rumo ao topo do Monte Mulanje, no Malauí. A primeira sequência mostra o momento em que dois camponeses locais encontram o corpo do jovem....

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Publicado por em fev 10, 2016 em Artigos, Críticas |

Vento (2015), por Robledo Milani

Vento (2015), por Robledo Milani

  “O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria”. Com esses singelos dizeres de Mário Quintana, o inesquecível “poetinha”, a diretora Betânia Furtado inicia o belo Vento, curta de animação finalizado na metade de 2015 e que teve uma das suas primeiras exibições públicas no dia 30 de janeiro de 2016, durante 19° Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais. Em pré-estreia nacional, o filme de apenas 13 minutos foi apresentado dentro da Mostrinha, uma programação especial de filmes voltados ao público infantil. Mas o que se vê na tela é indicado a qualquer tipo de espectador, sem delimitação de idade. Em cena, acompanhamos o cotidiano de Gabriel, uma criança solitária. Ele vive com os pais em uma comunidade beira-mar que vive da pesca e das variações do tempo. A única certeza ali parece ser o som do vento, que sopra sem parar e é, em última instância,...

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Publicado por em fev 5, 2016 em Artigos, Críticas |

As Aventuras do Avião Vermelho (2014), por Monica Kanitz

As Aventuras do Avião Vermelho (2014), por Monica Kanitz

  Os realizadores gaúchos Frederico Pinto e José Maia assinam a direção de As Aventuras do Avião Vermelho, longa de animação adaptado do livro homônimo de Erico Verissimo. A obra original é de 1936; o filme chegou aos cinemas no final de 2014. Apesar de todo este distanciamento, o roteiro da história (feito a seis mãos por Frederico Pinto, Camila Gonzatto e Emiliano Urbim) garante a originalidade da história protagonizada por Fernandinho, um garoto travesso de 8 anos que literalmente atormenta quem está à sua volta. Num universo que oferece recursos cada vez mais especiais e mirabolantes, As Aventuras do Avião Vermelho parece um desenho animado à moda antiga. Os personagens – todos criados no papel – têm traços simples e estão cercados de uma certa ingenuidade. Mas o Fernandinho do filme já vive numa época de videogame, celular e sabe bem o que significa ser hiperativo. Na falta da mãe (que já morreu), o pai sempre ocupado tenta acalmar o guri de várias maneiras, até que descobre o...

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