Atuações se destacam em “Papagaios”, primeiro filme de ficção de Douglas Soares, por Adriana Androvandi

O filme “Papagaios”, do diretor Douglas Soares, levou quatro kikitos no Festival de Cinema de Gramado: Melhor Ator para Gero Camilo, Melhor Direção de Arte, Melhor Desenho de Som e Melhor Filme pelo Júri Popular.
Gero Camilo interpreta com maestria Tunico, um papagaio de pirata, expressão usada para pessoas que ficam ao lado de celebridades ou repórteres em frente às câmeras de televisão, com um único objetivo: aparecer. Seu troféu foi merecido, tornando-se ele elemento fundamental da obra cinematográfica. O artista revelou que esta foi a primeira vez em que esteve no Festival.
Seu protagonista se apresenta como o “melhor amigo dos repórteres”, pois sempre está ao lado de algum deles durante uma cobertura ao vivo. Sua figura chama a atenção de Beto, um jovem que trabalhava em um parque de diversões. O rapaz passa a segui-lo e logo dá um jeito de conhecê-lo. Sem nenhuma perspectiva profissional, Beto passa a ser um aprendiz de como ser um papagaio de pirata com Tunico, e ambos criam uma relação próxima a de pai e filho. Beto ganha até um quartinho nos fundos da casa do mestre e passa a morar no mesmo terreno.
As sequências com Gero Camilo em suas atuações em eventos públicos no filme causaram gargalhadas na plateia. Mas o filme é, na verdade, um suspense, especialmente pela personalidade complexa de Beto. Nada se sabe sobre seu passado, mas é perceptível que ele se mostra disponível para fazer o que for necessário para subir na vida. “Ele é um alpinista social”, definiu o ator Ruan Aguiar, que interpreta Beto.
O jovem misterioso fala pouco, mas se revela um sedutor. Em outros momentos, é possível ver uma fúria em seu olhar, o que vai revelando um indivíduo ambíguo. “Eu tava muito empolgado com esse filme, essa personagem e quero dimensionar o desafio, já que tinha acabado de sair de uma novela com um clima totalmente diferente da proposta do longa”, disse Ruan. Tanto Ruan quanto Gero Camilo destacaram o trabalho da preparadora de elenco Tati Muniz, que trabalhou com ambos nos ensaios. Aguiar não apenas conseguiu entrar no personagem, mas se mostra uma revelação na dramaturgia.
Uma das cenas mais lindas do filme, elogiada pelos jornalistas e críticos, é a que Tunico e Beto ensaiam em frente a um espelho, que tem a função de uma futura câmera, trocando posições de maneira que um nunca fique na frente de outro, evitando tapar sua imagem. Os movimentos se tornam uma verdadeira coreografia, ao som da música “Naquela Mesa“, de Sergio Bittencourt com interpretação de Nelson Gonçalves, com uma sensibilidade e sincronia que encantaram o público. Esta cena já se torna histórica no cinema brasileiro.
Também trabalha no filme o ator e cantor Leo Jaime, como ele mesmo. Ele será o homenageado como tema do samba-enredo da Escola de Samba de Curicica, bairro do Rio de Janeiro. Este bairro foi reconhecido por ter muitos papagaios de pirata e é lá que parte da trama se passa. Com o anúncio de que Leo Jaime vai frequentar a região, Tunico e Beto planejam se aproximar da celebridade.
Tanto Gero Camilo quanto Leo Jaime confessaram que estavam cansados de trabalhar em cinema ou audiovisual por experiências estressantes no passado. Mas o que os fez aceitar este trabalho foi a qualidade do roteiro e a equipe envolvida. O elenco conta ainda com artistas como Babi Xavier, Claudete Troiano e Ernesto Piccolo.
Este é o primeiro longa de ficção do diretor Douglas Soares, que tem experiências como documentarista. O argumento teve colaboração do ator Humberto Carrão. Soares confessa que uma das coisas que o guiou no trabalho foi a nostalgia da imagem e dessas figuras que vivem à sombra de outras e que hoje podem estar em outros lugares, como na Internet, como influencers. Por isso o cineasta tomou a decisão de não delimitar uma época específica no filme. “Eu quis mostrar um mundo em transição, em que várias mídias convivem, mas a televisão ainda com um papel fundamental, que hoje já perdeu espaço parte a Internet”, explica.
Outra característica do filme é não mostrar cenas que seriam conclusivas para determinadas sequências, o que aumenta a tensão no espectador. Algumas questões ficam propositalmente em aberto. Esta é uma decisão ousada do diretor e pode causar estranhamento para o espectador acostumado a receber a finalização do filme com soluções bem explícitas. Esta edição pretende “discutir as ausências”, segundo o cineasta.
Por fim, a televisão, que dá visibilidade a estes personagens, também serve como um instrumento de vigilância. Esta é ambiguidade da fama, em um mundo onde tudo tem o seu preço.