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Publicado por em set 5, 2025 em Artigos, Destaque, Festival de Gramado |

“Animais Possíveis”, por Ivana Silva


No Festival de Gramado 2025 o olhar do espectador descortinou, sob as baixas temperaturas da cidade, filmes que trouxeram desde a reflexão difícil sobre eutanásia- apesar da tentativa de aliviar o tema com uso do humor ( Sonhar com Leões, direção Paolo Marinou- Blanco, Menção Honrosa) até a possibilidade de ver na tela terras do sul nunca antes registradas pelo cinema, no caso a região de Teutônia e suas paisagens, reveladas no instigante curta- metragem gaúcho “Gambá”, dirigido por Maciel Fischer.

Essa obra, merecidamente, levou o prêmio de Melhor Fotografia ( Assembleia Legislativa RS) e também o prêmio de Melhor Curta- Metragem Gaúcho (ACCIRS), em um trabalho de cunho também educativo junto à Escola Municipal 24 de maio, colocando como protagonistas estudantes da própria instituição de ensino. É um grande mérito.

Mas enriquecedor e necessário é também perceber como passaram por nós, sapiens espectadores, também outras espécies. Variadas criaturas se mostraram em evidência no festival, trabalhados de forma criativa e inusitada por seus realizadores. Desse modo, animais variados lançaram fagulhas, estabeleceram elos, amarraram narrativas, originando sequências memoráveis junto ao público.

O delicado e feminino longa- metragem “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, que saiu premiado do festival:  Melhor Atriz Coadjuvante para Aline Marta Maia, Melhor Trilha Sonora Original para Alekos Vuskovic e Prêmio Especial do Júri, intrigou a plateia com um intruso porquinho, que perturbou a protagonista Glória ( Laura Brandão) com sua breve presença em cenas,  mas carregou também muitos de seus medos. Em outro momento de destaque tivemos Boiuna, curta- metragem nacional, que trouxe ao Palácio dos Festivais a belíssima fotografia de Thiago Pelaes ( Prêmio de Fotografia) contando em uma versão atualizada a lenda da poderosa serpente, também conhecida no folclore como Cobra- Grande. Nesse cenário amazônico, com toques de suspense e do fantástico, assistimos mãe e filha, aos poucos, conhecendo uma nova figura ligada à força e à feminilidade ancestral. Jhanyffer Santos e Naieme receberam destaque como atriz, assim como Adriana de Faria, que foi premiada pela direção na categoria.

 “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, uma distopia sobre o envelhecimento e que recebeu o Urso de Prata em Berlim, entre outros prêmios de destaque, foi a obra  apresentada na noite de abertura do festival (hors concours), em 15 de agosto. O filme deixa em evidência, especialmente, um cobiçado caracol alucinógeno. Com sua gosma azulada pingada aos olhos ocasionou “viagens” interiores que permitiram ver até o futuro. A secreção azulada, que também remete às águas e à Amazônia neste road movie aquático ( o termo parece estranho, mas boa parte do filme se passa sobre barcos, em rios) , saiu das telas e pintou, com boa dose de criatividade,  o tapete do festival , que tradicionalmente é vermelho na abertura. Ali pudemos viver uma antecipação, da ordem do sensorial, e de certa forma mergulhar no que viria pela frente na exibição da noite.

O caracol baba- azul surge na narrativa como um elemento mágico, com o papel de possibilitar a certos personagens, como Cadu  ( um Rodrigo Santoro amargo ) novas visões da realidade, outros olhares sobre as adversidades e novos ciclos parecem possíveis.  O molusco auxiliará adiante a protagonista Tereza ( Denise Weinberg em atuação contida e desconcertante), a lutar contra um sistema que descarta seus idosos com dureza.

Com o personagem Ludemir ( Adanilo Reis), mecânico de ultraleve que vive à beira do rio, a protagonista buscará auxílio para a realizar seu sonho de voar. Neste microcosmo temos a mentira, o vício e a ilegalidade. Isso aparece especialmente quando a dupla fica diante de uma conhecida e ao mesmo tempo secreta fauna nacional, desenhada de forma simples e bem visível em uma parede: estamos em território de jogo do bicho, e a fala astuta de Ludemir revela nuances dessa selva.

Mas a cena mais tensa e emblemática da trama é ao mesmo tempo bela e cruel. Gira em torno de Tereza e a luta de 2 peixes ornamentais. É tipo uma briga de galo entre graciosos animais de aquário: temos Via Láctea contra Sangue do Diabo! Limitados em sua clausura, incompatíveis entre si, lutam por dominância, traduzindo a trajetória da heroína.

Em “O Último Azul” temos um filme calcado na natureza e seus ciclos, que discute com singularidade a discriminação e a busca da liberdade. É um drama sobre a consciência de si e também uma mirada sobre a passagem do tempo. É, essencialmente, humano, por isso vale a pena. Mas não esquecemos nessa obra de olhares, corpos, peles, formas, sons e movimentos de outros seres vivos que se fizeram aparecer em mise en scène e que não se importam com a câmera.

Agora a tela do cinema é aquário. No início, jacarés dilacerados, como em matadouro, marcam silenciosamente presença na fábrica. Ao final reparamos um deles na água,  muito vivo e lunar, rondando o barco de Tereza. O futuro?…É para todos.