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Publicado por em jun 7, 2017 em Artigos |

Toni Erdmann

Por Thomás Boeira, especial para o site da Accirs.

É raro encontrar obras que sejam adoradas de maneira absolutamente unânime pelas pessoas. Isso é até óbvio, mas inevitavelmente me veio em mente enquanto assistia a este Toni Erdmann, longa escrito e dirigido por Maren Ade. Afinal, quando o filme chegou num determinado ponto de sua história, um grupo de pessoas se levantou e saiu do cinema, como se ele tivesse esgotado a paciência delas. É algo até compreensível considerando o senso de humor incomum da narrativa, de forma que aquilo que alguns viam como divertido (e já admito que faço parte deste grupo), para outros talvez fosse uma coisa boba ou simplesmente chata. E duvido que prêmios em Cannes ou indicações ao Oscar possam mudar isso.

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No filme, Peter Simonischek vive Winfried Conradi, um professor de música que decide ir de surpresa até a Romênia para passar um tempo com a filha Ines (Sandra Hüller), a fim de se reaproximar dela. No entanto, o momento não poderia ser mais inconveniente, com ela dedicando todo seu tempo para a empresa na qual trabalha. Para driblar isso, Winfried passa a aparecer nos encontros pessoais e profissionais da filha encarnando Toni Erdmann, seu alter-ego com peruca desgrenhada e dentadura estranha.

Naturalmente, a dinâmica entre Winfried e Ines rapidamente se torna o grande cerne do filme. E a partir disso, mais do que a clássica história de reaproximação, o que se vê ao longo de Toni Erdmann é um conto sobre a importância de um equilíbrio entre a presença de pais e filhos na vida uns dos outros e a independência entre eles. Por mais compreensível que seja o desejo (e até mesmo a necessidade) de Winfried de ter Ines em sua vida, ele eventualmente acaba tendo contato com aspectos da rotina dela que ele não precisaria conhecer, da mesma forma como ela tem tanto foco no trabalho que esquece quem existe ao seu redor e o carinho que está perdendo. São personagens que não deixam de ser um tanto melancólicos por conta da clara carência que sentem, ainda que não percebam isso em si mesmos, especialmente Ines.

Ainda assim, Maren Ade consegue criar momentos engraçados, o que ocorre tanto a partir da mania de Winfried de fazer brincadeiras (como os sustos imaturos que ele dá na filha) quanto das situações de desconforto em que os personagens se metem, algo que chega ao ápice na festa organizada por Ines e a maneira inesperada e atípica como tudo transcorre, resultando em uma cena surpreendentemente hilária. Ao mesmo tempo em que esse aspecto mais cômico funciona, é bom ver que a diretora nunca esquece de tratar com sensibilidade os personagens, sendo que nisso ela tem o auxílio das belíssimas atuações de Peter Simonischek e Sandra Hüller, que desenvolvem também uma brilhante dinâmica de pai e filha.
As pouco mais de duas horas e meia de duração de Toni Erdmann talvez pudessem ser cansativas. Mas com tudo o que apresenta, Maren Ade sustenta muito bem a narrativa que constrói no filme, que se mantém cativante do início ao fim graças, principalmente, ao carinho que tem por seus personagens.