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Publicado por em nov 4, 2017 em Destaques, Notícias | 0 comentários

Prêmio Abraccine para o gaúcho Yonlu

O filme Yonlu, de Hique Montanari, foi eleito Melhor Filme Brasileiro na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo pelo Júri da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema, formado pelos jornalistas e críticos Daniel Medeiros, Rosane Pavam e Sergio Rizzo.yonlu

O longa conta a história real de um jovem músico e internauta que conquistou seguidores de diversas partes do mundo com as canções e os trabalhos que publicava na internet onde acabou cometendo suicídio. O roteiro é do próprio Montanari, e no elenco estão Thalles Cabral, Nelson Diniz, Liana Venturella e Leonardo Machado, entre outros. Yonlu será o filme de abertura do 9ª Festival Internacional de Cinema da Fronteira, de de 15 a 19 de novembro, em Bagé, cidade no qual é realizado de forma ininterrupta desde de 2009.

Reproduzidos aqui o texto O novo cinema gaúcho caminha a passos largos, publicado pelo crítico Roger Lerina em sua coluna no site Coletiva.net em 01/11/2017

Roger fez a cobertura da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e avaliou a participação da produção do Rio Grande do Sul.

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo é uma das minhas Disneylândias nacionais – a outra é o Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Fico faceiro que nem pinto no lixo mergulhado no aluvião de filmes de países como Suíça, Egito, França, Alemanha, Geórgia, Itália, Bolívia, Finlândia, Irã, Argentina, Irlanda, Coreia do Sul, Estônia, Islândia, Chile, Suécia… Na 41ª edição do festival, que se encerrou nesta quarta-feira, vi quase 50 longas em 12 dias. Havia também títulos brasileiros, claro: neste ano, a mostra exibiu 64 novas produções – dentre elas, quatro gaúchas. Acompanho a maratona cinemeira paulistana há vários anos e não me recordo de uma participação sulista tão expressiva, tanto do ponto de vista numérico quanto qualitativo. A representação do Rio Grande do Sul contou com o documentário A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro, Bio – melhor filme brasileiro pelo júri popular no Festival de Gramado -, Música para Quando as Luzes se Apagam e Yonlu. Os dois últimos foram dirigidos por estreantes em longa-metragem – e compartilham entre si muito mais do que apenas o lugar de onde provêm.

Tanto Música para Quando as Luzes se Apagam quanto Yonlu apresentam em narrativas não convencionais as histórias de adolescentes em desacordo com os padrões convencionais da sociedade, em pleno processo de exploração de sua sexualidade e que cultivam um universo de referências culturais e de valores rico e independente do mundo dos adultos. Exibido no Festival de Brasília, Música… utiliza quase todo o tempo um formato de imagem mais quadrado, semelhante ao das gravações em celular e filmagens caseiras, para registrar o cotidiano de Emelyn Fischer, menina de Lajeado que se veste como garoto. A jovem hospeda em sua casa a personagem de Júlia Lemmertz, espécie de alter ego do diretor Ismael Caneppele, mulher que passa a conviver com a família de Emelyn e registrar em vídeo as confidências da adorável guria e seus encontros com os amigos e a namorada.

Caneppele volta ao ambiente das cidades do interior, já abordado em Os Famosos e os Duendes da Morte (2009) – filme dirigido por Esmir Filho baseado em seu romance homônimo -, em que a juventude é confrontada com uma realidade paradoxal: por um lado, as amplas paisagens abertas convidam à exploração constante; por outro, a estreiteza de horizontes existenciais arrasta para a estagnação. Borrando os limites de gênero entre documentário, ficção e ensaio poético, Música… é um filme trans como sua protagonista.

Yonlu ocupa toda a extensão da tela no formato estendido para mostrar Porto Alegre e os cenários íntimos por onde circula o personagem-título. Para construir o roteiro, o diretor Hique Montanari baseou-se em músicas, ilustrações e textos deixados por Vinicius Gageiro Marques, estudante que se matou em 2006 aos 16 anos com o auxílio de internautas participantes de um fórum sobre suicídio. Costurando trechos de relatos deixados por Yoñlu – nome artístico adotado por Vinicius -, canções e animações produzidas a partir de desenhos feitos pelo protagonista, o filme esboça um retrato emocionante, ainda que lacunar, do sensível e talentoso adolescente que sucumbiu à melancolia e à depressão. Da mesma forma que o espectador, tanto os pais (interpretados por Liane Venturella e Leonardo Machado) quanto o psicanalista vivido pelo ator Nelson Diniz não conseguem decifrar totalmente o enigma Yoñlu (Thalles Cabral), que apela para a internet a fim de buscar informações que o ajudem em seu intento trágico – a maneira fantasmagórica e teatral como o filme encena os diálogos do garoto com os anônimos interlocutores virtuais, aliás, é um dos acertos da produção.

Ao lado de Bio, de Carlos Gerbase, e‘A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro, de Leo Garcia e Zeca Brito, ambos longas igualmente inventivos, Música para Quando as Luzes se Apagam e Yonlu atestam que a produção cinematográfica gaúcha vem enfim caminhando com firmeza nos últimos anos rumo à maturidade. Que o passo continue firme nesse ritmo.

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