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Publicado por em jun 8, 2017 em Artigos | 0 comentários

O ogro vem da Alemanha

Por Roger Lerina, publicado no jornal Zero Hora em 11 de fevereiro de 2017

Ainda que a comédia não seja um gênero exatamente associado pelo nosso público ao cinema da Alemanha – a escassez desse tipo de filme na programação local reforça essa impressão –, alguns dos maiores comediógrafos das telas tiveram origem germânica, como o alemão Ernst Lubitsch (1892 – 1947) e o austríaco Billy Wilder (1906 – 2002).
O mais novo expoente dessa subestimada linhagem é Toni Erdmann (2016), produção austro- alemã que chega ao Oscar como favorita na categoria de filme estrangeiro depois de ter arrebatado dezenas de prêmios internacionais, inclusive o da crítica no Festival de Cannes – finalista também ao Globo de Ouro, perdeu o troféu para o igualmente ótimo Elle (2016).

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Terceiro longa da diretora, roteirista e produtora Maren Ade, Toni Erdmann é uma característica comédia alemã agridoce, que provoca tanto o riso quanto a reflexão, filiando-se a uma tradição de crítica social de teor satírico exercitada por cineastas como Rainer Werner Fassbinder em títulos do tipo O amor é  mais frio que a morte (1969) e A terceira geração (1979) e Doris Dörrie em Homens (1985).

Toni Erdmann acompanha a truncada tentativa de reaproximação de um pai com a filha, advogada consumida por um cotidiano estressante e competitivo. No filme, estreia desta semana em Porto Alegre, o bem- humorado Winfried (Peter Simonischek) é um sujeito grandalhão que gosta de bancar o engraçadinho e leva uma vida solitária e pacata com seu cachorro no interior da Alemanha. Ao visitar na casa da ex-mulher a filha que está de passagem pela cidade, o personagem percebe a tensão emocional e a instabilidade profissional de Ines – vivida por Sandra Hüller, atriz de Requiem (2006) e Movimento browniano (2010).

Winfried decide então fazer uma surpresa visitando- a em Bucareste, onde ela trabalha para uma grande empresa multinacional. Depois de testemunhar os apertos pelos quais Ines passa lidando com os tubarões executivos e seus gananciosos interesses corporativos, o pai decide ajudar a garota – mas do seu jeito torto: coloca uma peruca ridícula, uma dentadura postiça que leva sempre no bolso e passa a se apresentar como o tal Toni Erdmann do título, afirmando ser treinador de liderança do chefe da firma. As aparições de Winfried/Toni são bizarramente ultrajantes, envergonhando Ines e constrangendo colegas, superiores e clientes. Aos poucos, porém, a cara de pau e a insistência do protagonista levam a jovem ambiciosa a questionar sua vida e seus objetivos. Com perguntas como “Você está feliz?”, o pai distante acaba desarmando a filha confusa, estabelecendo um canal de comunicação que, mesmo intermitente, pode talvez recuperar a conexão afetiva perdida entre os dois.

HOLLYWOOD VAI REFILMAR A HISTÓRIA COM JACK NICHOLSON

Vencedor do European Film Awards nas categorias de melhor filme, diretor, roteiro, ator e atriz, Toni Erdmann vai ganhar versão hollywoodiana: foi anunciada nesta semana a refilmagem da trama, que será estrelada por Jack Nicholson – em seu primeiro papel desde Como você sabe (2010) – e pela comediante Kristen Wiig. É difícil acreditar que o remake consiga replicar o registro ao mesmo tempo risível e melancólico do original alemão: cada cena de Toni Erdmann é cuidadosamente construída para que o espectador sinta na mesma medida o desconforto de Ines com a presença invasiva de Winfried e a tristeza do pai que constata a brutalização da filha, focada apenas no sucesso na carreira e indiferente à dura realidade romena ao redor.

A precisão do roteiro e da direção encontra eco nas atuações exatas de Peter Simonischek e, especialmente, Sandra Hüller, capazes de imprimir verossimilhança a essa comédia que às vezes beira o absurdo e poderia tornar-se excruciante em suas quase três horas de duração.

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