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Publicado por em dez 22, 2017 em Destaque | 0 comentários

Fez-se a luz!

Por Adriano de Oliveira Pinto, especial para o site da Accirs, sobre Lumière! A aventura começa (2017), lançado em Porto Alegre em dezembro de 2017.

Lumière. “Luz”, em francês. Como diria o saudoso Moacyr Scliar, há nomes e sobrenomes que condicionam destinos. Que acerto do destino, normalmente constituído de vias tortas, ao fazer dos irmãos Lumière os pais do Cinema! Pois primitivamente o cinema, em sua escala mais íntima, atômica, nada mais é do que luz – e sua complementar contrapartida, sombra.

Filme_Lumiere

Thierry Frémaux, diretor do Instituto Lumière e de dois importantes festivais – aquele organizado pela instituição e o de Cannes –, faz uma ode à Sétima Arte com seu sublime documentário Lumière! A aventura começa (2017), onde apresenta 108 curtas dos irmãos franceses ao longo de uma hora e meia de puro deleite cinematográfico. Os comentários perspicazes de Frémaux fazem o coração do cinéfilo bater mais forte ao mostrar as origens (e os desdobramentos) de uma arte que tem fascinado espectadores em todo o globo há mais de um século.

Méliès, Porter, Griffith, Eisenstein, Welles e vários outros aperfeiçoaram a linguagem do cinema ao longo da primeira metade do século passado, porém um de seus fundamentos essenciais, o enquadramento, veio de outras artes (especialmente fotografia e pintura) e constituiu a base dos trabalhos registrados pelo pioneiro cinematógrafo dos Lumière e de seus operadores. Trabalhando a princípio com câmera fixa, ficou-lhes evidente que saber o que deveria ser retratado em imagens em movimento e de que forma, era não apenas a pedra angular do seu ofício, mas a sua própria razão de ser. O olho do cineasta é a sua câmera, e a visão dele, correspondente à posição que ela ocupa, é também sua particular descrição/visão de mundo. Rapidamente, com os parcos recursos que tinham à mão, os pioneiros do cinema se tornaram mestres do enquadramento, da tomada e da composição da cena, sabendo utilizá-los como ferramentas para estabelecer os primeiros passos de uma nova arte.

Por meio das observações do narrador/diretor, o documentário nos mostra que vários outros elementos e aspectos do cinema surgiram nos curtas dos Lumière (os quais foram catalogados em mais de 1400 títulos): o remake, alguns tipos de gêneros, o travelling (em variadas formas), a profundidade de campo, a mise-en-scéne, o timing, os efeitos visuais… E também aponta como cenas desses pequenos filmes de 50 segundos de duração reapareceriam transfiguradas em obras de diretores tão diferentes entre si como Luchino Visconti, Yasujiro Ozu e James Cameron, o que demonstra não apenas o papel de tais curtas como ovo primordial de um universo em contínua expansão, mas também o quanto de cíclico e atávico há nesta arte.

É impossível não reconhecer a grandeza dos pioneiros de Lyon e seu legado que literalmente ganhou o mundo, não há como deixar de se comover ao final dessa viagem por belas imagens e surpreendentes descobertas. E se lágrimas escorrerem de seus olhos ao final da projeção, isso também é cinema.

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