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Publicado por em out 31, 2017 em Destaques, Dossiês | 0 comentários

Dossiê :: 5º CineSerra

Como aconteceu em anos anteriores, a Accirs foi parceira do CineSerra – Festival do Audiovisual da Serra Gaúcha, realizado em 5ª edição entre os dias 17 e 28 de outubro. A mostra competitiva contou com 45 concorrentes, 18 no concurso regional e 27 no estadual. O júri da Accirs foi formado pelos críticos André Kleinert, Cristiano Aquino e Daniel Dalpizzolo que elegeram como melhores filmes Ecocide da banda Cordica (categoria curta/video-clip), Manifesto Porongos, de Tiago Köche (categoria documentário) e Sob águas claras e inocentes, de Emiliano Cunha (categoria ficção).

A seguir texto produzido pelos críticos sobre os filmes premiados:

Em O formidável, recente longa-metragem francês que mostra o período de inquietação artística e existencial do cineasta Jean-Luc Godard, após a deflagração dos eventos do Maio de 68 em Paris, há uma sequência em que um trabalhador rural fala para o diretor sobre a necessidade de se assistir a filmes agradáveis diante de uma realidade tão amarga e difícil para logo ser espinafrado por Godard. A sutileza dessa forma de pressão sobre um artista ganha especial ressonância para os dias de hoje, especialmente no Brasil, onde o famigerado MBL e outros setores obscurantistas da sociedade, em nome de uma hipócrita defesa da família, exigem uma arte asséptica em termos morais e descompromissada ideologicamente, ignorando de maneira cínica que qualquer modo de expressão artística sempre será um reflexo dos desejos, contradições e dilemas de uma época e lugar específicos. Tal constatação fica evidente, de maneira explícita, na seleção competitiva de curtas da edição de 2017 do CineSerra.

Cartaz de Sob águas claras e inocentes

Cartaz de Sob águas claras e inocentes

A maior parte dos filmes exibidos, em maior ou menor grau, e mesmo variando em suas qualidades estéticas e narrativas, trouxe à tona em sua temática uma ampla gama de questões prementes no cenário sócio-político-cultural contemporâneo como discriminação racial, homofobia, exploração econômica, preocupações ecológicas, manipulação midiática, conflitos de classe e mal-estar existencial. E quando se pensa que toda essa carga de contestação esteve presente em um evento em Caxias do Sul, cidade do governador Sartori, mentor do atual processo de “austericídio” econômico e moral do Estado do Rio Grande do Sul, fica ainda mais claro o papel de reflexão e mesmo de desafio do cinema e demais formas de arte. Diante de tal situação, as escolhas do júri da Accirs dos melhores curtas acabou, inevitavelmente, se revelando em sintonia com esse espírito de combate e inquietação da maioria das obras da seleção de filmes do CineSerra.

Na categoria ficção, o vencedor foi Sob águas claras e inocentes, pelo uso apurado da linguagem cinematográfica para construir sua engenhosa narrativa. Através de uma cinematografia cuidadosa e atenta para a movimentação dos corpos e da câmera no espaço cênico, sustenta-se uma atmosfera de inquietação ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Um ser em diferentes corpos, diferentes corpos em um mesmo conflito. Homens e mulheres de diversas idades, gêneros e cores percorrem a cidade numa noite de angústia e despedida, culminando em um incontornável grito de desespero.

Grupo Rafuagi e projeto AFROntamento do filme Manifesto Porongos de Thiago Köche

Grupo Rafuagi e projeto AFROntamento em Manifesto Porongos, de Thiago Köche

Já para documentário, destacou-se Manifesto Porongos, que com um trabalho de pesquisa profundo, e uma imersão nos diversos ambientes para obter depoimentos reais dos protagonistas, narra um importante momento histórico do nosso Estado sem se colocar na posição de vítima, mas usando de fatos e registros para tentar corrigir um pouco a história. Além disso, o documentário cresce na mistura de formas, utilizando o videoclipe inserido em seu contexto como um protesto duro e legítimo, acrescentando uma versatilidade ainda maior ao filme.

Por fim, na categoria videoclipe, o prêmio ficou com Ecocide, da banda Caordica, pela criatividade de sua estética, que combina de maneira explosiva a linguagem das HQs, trechos documentais e expressiva encenação, aliado a um contundente discurso existencial-político a expor a crueldade com animais e a devastação da natureza que ajudam a sustentar uma desumana sociedade de consumo, e tendo por resultado final uma obra de forte impacto sensorial.

 

O prêmio do júri Accirs foi entregue por Siliane Vieira, que também escreveu texto especial sobre o Fetival para o site da Accirs.

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