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Dossiê Gramado 2009

 

 

A seguir, quatro análises do Festival de Cinema de Gramado de 2009, elaboradas a partir das três mostras competitivas e da experiência pioneira de organização do júri da crítica comandada pela ACCIRS.



Para aqueles que enxergaram Baal e ignoraram Xuxa

Começando pela celeuma da homenagem à Xuxa, convenhamos, é preciso separar os assuntos. A vinda desta senhora está no campo do business, que alcançou o seu objetivo: rendeu em mídia espontânea para o festival muito mais do que o investido em jatinho, seguranças, etc. E rendeu aos comerciantes locais aquele movimento extra, que permite ao evento fechar parcerias que fazem a máquina do festival funcionar.

Não podemos ignorar que o festival surgiu, há 37 anos, por uma demanda da área do turismo e, para o setor do comércio e de serviços, é para isto que serve o evento. Já, obviamente, para o cinema o festival tem outro sentido. E enquanto a curadoria, seja ela qual for, tiver autonomia para trazer filmes como Canção de Baal, de Helena Ignez, melhor filme segundo o Júri da Crítica, o festival, para o cinema, terá seu sentido garantido.

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Fôlego curto

Quase sempre um dos pontos altos da programação do Festival de Gramado, a mostra competitiva de curtas deste ano decepcionou. Há muito tempo não se via uma seleção tão fraca, marcada por curtas-piada pouco eficazes (O Troco, Em Terra de Cego, A Invasão do Alegrete) e produções mais ambiciosas cuja pretensão é abortada por direções frouxas (Doceamargo, Pra Inglês Ver).

Entre os poucos destaques da competição estão os dois curtas que concentraram o maior número de prêmios, a produção paulista Teresa, de Paula Szutan e Renata Terra, e o carioca O Teu Sorriso (foto), de Pedro Freire.

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Mostra brasileira ficou devendo

A seleção de longas brasileiros de Gramado foi uma das mais fracas dos últimos tempos – apesar de a organização do festival ter comemorado neste ano o recorde de inscrições na categoria: 85 títulos. Nenhum filme arrebatou simultaneamente público e crítica, e mesmo aqueles bem recebidos foram acompanhados de reparos. Nesse panorama, apenas uma produção destacou-se acenando com alguma inventividade do ponto de vista estético: “Canção de Baal”, de Helena Ignez.

O melhor e mais inovador filme da competição brasileira foi obtusamente ignorado pelo júri oficial, levando apenas o Kikito de direção de arte – para Fábio Delduque, também dono da fazenda que serviu de locação para a produção.

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Lição latina

Entre os longas-metragens estrangeiros apresentados nesta 37ª edição do Festival de Cinema de Gramado, a riqueza de temáricas pôde ser percebida a partir de universos tão locais como o interior do Peru, um supermercado da periferia da capital uruguaia, o cosmopolitismo individualizante de Buenos Aires e uma fazenda colombiana localizada a poucos quilômetros de Bogotá.

Do documentário à ficção, os filmes latino-americanos nos mostraram como se pode contar histórias com emoção, uma estética equilibrada, atores bem conduzidos e realidades particulares que ganham contornos globais.

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Mais que na Hora

Por que o Rio Grande do Sul, sede de um dos mais tradicionais festivais de cinema do país (o de Gramado), terceiro pólo brasileiro de produção cinematográfica, território de várias escolas audiovisuais e foco geográfico de excelente revista especializada – a Teorema (já no décimo segundo número) – não dispunha de uma associação de críticos? 

A cada ano, quando a atuante Associação dos Críticos do Rio de Janeiro comandava, em Gramado, a reunião responsável pela atribuição do respeitado prêmio da crítica, eu me perguntava: mas por que um Estado com tamanha massa crítica e tradicional poder de aglutinação de suas categorias profissionais (em associações, sindicatos e cooperativas) não reúne seus críticos, pesquisadores e professores de cinema em uma associação?

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