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Home Especial Cinema Brasileiro 2010 Tropa de Elite 2 – Análise de um plano

Tropa de Elite 2 – Análise de um plano

 

Por Ivonete Pinto

Há muitos planos aéreos em Tropa de Elite 2 - afinal, trata-se de uma super-produção para os padrões brasileiros. Nenhum dos planos, no entanto,  é supérfluo. O que este texto pretende explorar é aquele em que a câmera de Lula Carvalho sobrevoa Brasília, mais exatamente o centro do Governo Federal: a Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional. É o final do filme, o capitão Nascimento, ou melhor, o Coronel Nascimento, já detonou o “sistema” na assembleia legislativa do Rio de Janeiro, culpabilizando os políticos, incluindo o Governador do Estado, pelo esquema  criminoso envolvendo a polícia e o tráfico carioca. Nada que a população brasileira desconheça, mas de qualquer forma a catarse fica garantida, porque esta população gostaria que alguém de dentro do sistema fizesse a denúncia pública e solenemente como no filme. A platéia lava a alma.

Acontece que a tomada aérea não estaciona nos prédios que formam o epicentro do poder em Brasília, ela continua seu passeio, indo parar no céu. O plano termina com a imagem no céu. Se a linguagem de câmera de um filme tão pensado como este não pode ser ignorada, está claro que Padilha entende que o estado de coisas no País não é só responsabilidade de políticos corruptos. O fato da câmera não parar nos prédios, nos indica que, em havendo Tropa de Elite 3, o que é bem provável, a culpabilização recairá sobre, justamente, quem aplaude o filme: nós.

Enquanto havia um certo desconforto na classe média,  atingida pela denúncia de Padilha naquele raciocínio do efeito dominó que representava os meros maconheiros na engrenagem do tráfico e no resultado final da violência, tudo bem. E enquanto todos ficarem gritando aos quatro ventos que os políticos estão por trás do crime organizado, também tudo bem. Mas quando Padilha, no Tropa 3, com a mesma contundência, vier a apontar o dedo para a platéia mostrando mais extensões do dominó desabando, talvez o desconforto aumente. Pequenos empresários que pagam propina a agentes do INSS para não levarem multa, motoristas inocentes que compram guardas para não serem multados, cidadãos acima de qualquer suspeita que pagam flanelinhas para que outros bandidos não levem seus carros. Neste último caso, residiria o nó górdio da questão, pois se no gesto da pequena corrupção não há sequer a clareza do ato criminoso, colocar-se frente à corrupção “dos outros”?

O número de pequenos exemplos da dubiedade da conduta/cultura de uma população é sem-fim. E esta é apenas uma suposição de como Padilha poderia continuar a série Tropa de Elite a partir do plano sobre Brasília. Nascimento, certamente, já estaria aposentado, e de pijama e chinelos seria aquele personagem meio patético que escreve cartas/e-mails diários aos jornais fazendo denúncias, cobrando justiça. É de reparar também que no plano em questão o céu de Brasília não é de brigadeiro, nem tampouco apresenta  nuvens escuras e pesadas. É um céu normal, com umas nuvenzinhas não-ameaçadoras, indicando que é na aparência da normalidade que devemos encontrar a origem da violência.

Somente este plano dá sentido maior ao filme, já que o fato de Padilha apontar culpados sem nominar ninguém, exceto instituições, torna as acusações um tanto difusas e pífias.  Se desse nome próprio a autoridades, políticos, partidos, chefes de polícia, o filme envelheceria muito cedo (além do diretor ser processado) e não daria a dimensão humana e atemporal que toda a tragédia requer. “A polícia”, “Os políticos”, “O poder”, “Brasília” são os vilões, mas o que altera o recado final de Padilha é a imagem que para no céu. Ela tem a mesma função de uma câmera que vira para a plateia num jogo de espelhos e diz: você aí que assiste ao filme também faz parte do “sistema”. Por nossa culpa, nossa tão grande culpa.

 

Uma estréia sublime (Matando Cabos, 2004)

Com elementos que têm tudo para ser uma comédia “pastelão” barata, Matando Cabos (menção honrosa na 17ª edição do San Juan Cinemafest e vencedor de três prêmios no MTV Movie Awards 2005), torna-se uma obra-prima conduzida com maestria pelo diretor mexicano Alejandro Lozano (diretor e roteirista do curta de 3min. Guzman Huerta, 2002).

Utilizando-se de um humor ácido e de uma violência fria e calculista como fio condutor para algumas tomadas, em certos momentos Lozano chega a atingir uma tênue semelhança à linguagem do clássico Laranja Mecânica (de Stanley Kubrick, 1971), inspirando-se livremente no estilo narrativo não-linear atualmente utilizado por diretores como Quentin Tarantino (Kill Bill Vol. I, 2003, e Kill Bill Vol.II, 2004) para expor argumentos indispensáveis para a trama (As influências citadas neste parágrafo são confirmadas pelo próprio diretor em entrevista cedida durante as filmagens de seu próximo longa, Sultanes del Sur).

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