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Home Especial Cinema Brasileiro 2010 E de repente, a vida vai ao filme

E de repente, a vida vai ao filme

Por Amanda Santo

Difícil haver alguém que nunca tenha imaginado a vida como um filme. Comédia, drama e uma pitada de suspense pelo desfecho. Escolhe-se trilha, roteiriza-se situações, cria-se fantasias para a própria trama real. E, então, vê-se que não se é personagens de um Show de Truman; os passos são guiados por nada além dos acontecimentos e suas emoções – mas, afinal, não é disso que o cinema é feito? Como uma chave mestra, foi justamente a emoção que deu ao cineasta Juan Zapata a ideia de fazer seu último filme, Ato de Vida – que, por si só, roteirizou o que nem o diretor havia imaginado. O documentário, realizado entre 2006 e 2008, nasceu de um singelo convite: “Não olha o sangue, olha só o que está acontecendo”, sugeriu, diante de imagens de um parto, a mulher que se tornaria personagem central.

A protagonista Susana Pacheco é mãe, esposa, ex-bailarina, artista. E quase como uma coroação a tudo isso, ela faz o que considera alimento da alma: filma partos na cidade de Pelotas (RS) – e é a única profissional a realizar a atividade no município. Mas não foi o ineditismo que a transformou em matéria-prima para a obra de Zapata; com personalidade carinhosa e determinada, ela chamou o diretor para um novo olhar sobre a vida – e sobre o sangue.

O envolvimento comum aos documentaristas com os temas escolhidos para a narrativa, desta vez foi além. O colombiano Zapata admite: foi tocado. “Eu me envolvi. O filme aconteceu em um momento sensível da minha vida”, diz o cineasta, que lutou até o fim para não se tornar personagem. Mesmo sem imaginar-se parte do filme, sua vida já estava ali, por inteiro diante das imagens. “O documentário toma vida. Então, me colocar como personagem foi a forma mais honesta que encontrei de apresentar isso”.

Os passos da mudança

No documentário, o diretor opera a câmera atrás dos passos de Susana. Do trabalho na loja de artesanato, que até então, em 2006, ocupava parte da rotina dela, à peregrinação pelos hospitais para divulgar o trabalho de filmagens de parto, tudo foi documentado pelo cineasta, que não pôde deixar de registrar suas impressões pessoais. E tudo feito da forma mais natural possível: em uma envolvente metalinguagem, ele resolve unir à história o próprio fazer dela.

Enquanto se desenrola o cotidiano da protagonista, acompanha-se o processo de montagem e escolha de novos rumos para o filme. Conversando com a montadora Luiza Faria, o diretor reflete sobre o fazer documentário, reavaliando o papel que deveria assumir. E então, como que inspirado por João Moreira Sales e Eduardo Coutinho, dos quais se diz admirador, Zapata decide não esconder mais nada por trás das câmeras.

Susana, é claro, contribui para essa mudança. Com sensibilidade aflorada, ela aproveita para mostrar o seu próprio olhar. Em uma das cenas mais interessantes, ela e o diretor propõem um duelo de câmeras; logo que assistem ao primeiro encontro entre um pai e a recém-nascida, as duas lentes se encaram e buscam saber as emoções que estão por trás do rec. A metalinguagem é tão profunda, que transpira a emoção real da produção – e envolve de forma única o espectador.

Os depoimentos colhidos junto às mães filmadas por Susana já mostrava nitidamente o envolvimento da profissional que, à sua maneira, também documenta. Em uma cronologia linear dos fatos - o que, de largada, já garantiria uma dose de dramaticidade -, o longa mostra o reencontro de Susana com o bebê cujo parto gravou na companhia de Zapata. O envolvimento junto à família, que se emociona diante do vídeo, vai além do profissional. “Eu sou muito passional. É um trabalho que me alimenta, me faz ser humano melhor”, diz Susana, que hoje já largou a loja de artesanato e se dedica exclusivamente às filmagens.

Se a gravação do documentário influenciou a vida dela, talvez o efeito tenha sido o mesmo no diretor. Assim como a personagem, ele mergulhou nas situações que registrava. “O filme já estava pronto em 2008 quando senti que faltava algo. Já tínhamos feito algumas exibições antes do lançamento quando decidimos mudar”, conta, lembrando ter passado todo 2008 e uma parte de 2009 gravando novas imagens, do processo de finalização.

Lançado em maio de 2010, Ato de Vida atualmente está em cartaz no Brasil, na Colômbia, no Equador, na Argentina e na Guiana Francesa. Um projeto para exibir gratuitamente em Pelotas, onde foi filmado, está sendo estudado por Susana e Zapata, que considera este seu filme mais expressivo em sete anos como cineasta profissional. “Cada documentário me faz alguém diferente. Este fez isso especialmente”.

 

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Por que o Rio Grande do Sul, sede de um dos mais tradicionais festivais de cinema do país (o de Gramado), terceiro pólo brasileiro de produção cinematográfica, território de várias escolas audiovisuais e foco geográfico de excelente revista especializada – a Teorema (já no décimo segundo número) – não dispunha de uma associação de críticos? 

A cada ano, quando a atuante Associação dos Críticos do Rio de Janeiro comandava, em Gramado, a reunião responsável pela atribuição do respeitado prêmio da crítica, eu me perguntava: mas por que um Estado com tamanha massa crítica e tradicional poder de aglutinação de suas categorias profissionais (em associações, sindicatos e cooperativas) não reúne seus críticos, pesquisadores e professores de cinema em uma associação?

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