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Cidadão Boilesen

 

Por Rodrigo de Oliveira

Cidadão Boilesen dirigido por Chaim Litewski e vencedor do Festival É Tudo Verdade em 2009, é um documentário que agrega mais um capítulo cinematográfico importante na história do cinema brasileiro. É salutar que cada vez mais cineastas voltem suas câmeras para este momento histórico traumático do país. Seja para entender o que aconteceu na época (e também relembrar estes fatos às gerações que viveram o período), seja para apresentar uma dura realidade às novas gerações e até mesmo assegurar que nunca mais seremos vítimas de tais atrocidades. O documentário traz informações interessantes – e novas - para quem nunca foi muito a fundo no período. Por isso é tão válido.

O diretor mostra em seu trabalho que a Ditadura não se manteve no poder sozinha. Não foi apenas um golpe militar, mas também civil. Diversos empresários ajudaram a financiar a máquina do governo, alguns por medo, outros por convicção. E, de acordo com o documentário, Boilesen ajudava por prazer. O dinamarquês veio ao Brasil ainda jovem, subiu aos poucos os degraus para o poder, e quando da ditadura militar, era o presidente da Ultragaz. Além de ajudar monetariamente a criação da OBAN (Operação Bandeirante), que investigava e punia os chamados ataques terroristas da época, Boilesen era visto nos lugares de tortura do DOI CODI. Diversos depoimentos dão como certo o seu desejo de estar presente nos momentos de tortura. Seu envolvimento com o golpe acabou lhe custando caro. O grupo rebelde MRT o executou em 15 de abril de 1971.

Através de depoimentos de figuras como Jarbas Passarinho, Celso Amorim, Dom Paulo Evaristo Arns, Coronel Brilhante Ulstra, Fernando Henrique Cardoso, e até do filho de Boilesen, Henning Boilesen Jr., Litewski compila um rico material sobre o período, conseguindo ser didático e, ao mesmo tempo, contundente em seus achados. A edição ajuda neste quesito. Quando algum depoimento inocenta Boilesen de quaisquer irregularidades, logo vemos mais três falando o contrário. É, afinal de contas, uma obra que tenta provar algo.

Dentre os depoimentos mais curiosos e interessantes, destacaria o de Henning Boilesen Jr., naturalmente defendendo seu pai das “acusações” feitas sobre sua conduta. Logicamente que para um filho, esta imagem do pai sádico é difícil de ser engolida. Para ele, Boilesen sempre será uma figura querida. Já para Carlos Eugênio da Paz, militante do movimento MRT, essa mesma pessoa será alguém que ele ajudou a executar. Hoje, professor de música, Carlos Eugênio explica como “a lista” foi compilada – lista esta que trazia três nomes de figurões que deveriam ser justiçados, dentre eles, com um asterisco ao lado, Henning Boilesen.

A condução da história do filme se dá sem tropeços, mesmo com o caminhão de informação que o cineasta tem para passar. É bem verdade que, em dado momento da narrativa, a figura de Boilesen é praticamente esquecida, para que Litewski tenha tempo de contextualizar o período para o espectador. Isso seria um problema, caso os depoimentos não fossem tão ricos. Através deles, temos um apanhado geral do que foi a Ditadura Militar, para logo depois descobrirmos mais e mais sobre o cidadão do título.

 

Em outra manobra interessante, o cineasta pede emprestado do cinema algumas cenas para ilustrar seu documentário. Portanto, assistimos a diversos trechos de filmes sobre o período, como Lamarca (1994), de Sérgio Rezende, e Batismo de Sangue (2006), de Helvécio Ratton, longas-metragens da retomada, e Pra Frente Brasil (1982), de Roberto Faria, produzido em plena ditadura militar e que tentou contar uma história que ninguém teria como fazê-lo. O próprio Roberto Faria aparece no documentário comentando sobre sua ousadia.

A única coisa que destoa de todo o resto em Cidadão Boilesen é a trilha sonora realizada por Lucas Marcier e Rodrigo Marçal. Em diversos momentos, parecia que a música estava totalmente deslocada do filme, animada ou moderna demais para o assunto tratado. Não estou aqui defendendo uma trilha sisuda. Mas foi no mínimo estranho assistir a alguns depoimentos sérios com algumas músicas pouquíssimo inspiradas no fundo.

Se serve de consolo, esse é apenas um ponto negativo em um longa-metragem que traz à tona fatos que não são tão conhecidos do grande público. Um dos entrevistados, o coronel Erasmo Dias, afirma que está claro que não foi apenas Boilesen quem participou ativamente da ditadura militar. Ele é apenas o mais conhecido, visto que foi assassinado de forma brutal. Outros nomes poderiam ser divulgados. E serão, provavelmente, ao passar do tempo. Portanto, Cidadão Boilensen pode ser o pontapé inicial para uma enxurrada de outros documentários sobre o período. Infelizmente, toda a verdade é difícil de vir à tona já que os documentos sobre a ditadura militar continuam sob sigilo. Cortesia do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos entrevistados do filme, que dois dias antes de entregar o cargo, tratou de mantê-los fechados por um bom tempo. Imaginem só o que não vai sair desses papéis quando chegarem ao grande público?

Isso, claro, se um dia chegarem.

 

Holly Vs. Bolly (Quem Quer Ser Um Milionário, 2008)

Holly Vs. Bolly, ou Por que está na Índia a salvação para o Oscar.

Desde 2004, quando o fantástico Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei foi escolhido como melhor filme do ano, tendo sido premiado em todas as 11 categorias a que concorria, nenhuma produção repetia tal performance como Quem Quer Ser um Milionário?, que no último dia 22 de fevereiro arrebatou oito das nove estatuetas a que fora indicado.

E por que foi preciso que um longa pequeno, independente, relativamente barato e sem nenhum nome minimamente conhecido no elenco arrebatasse a atenção e a preferência de todos dessa maneira?

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