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Por que amamos Isabelle Huppert

Por Roger Lerina

Ela não é exatamente linda – não daquela beleza que o cinema francês nos ensinou a enxergar nos rostos de Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Emmanuelle Béart. Tampouco emana o carisma evidente de outras divas de sua terra como Edith Piaf, Jeanne Moreau, Fanny Ardant. Mesmo assim, Isabelle Huppert é um dos maiores patrimônios culturais da França contemporânea – um tesouro nacional que a capital gaúcha vai recebe nesta semana: A atriz encerra a programação do 16º Porto Alegre Em Cena, subindo ao palco do Teatro do Sesi na quarta-feira e na quinta com a peça Quartett, versão do genial encenador americano Bob Wilson para o texto do alemão Heiner Müller – por sua vez, inspirado no romance epistolar Ligações Perigosas, do francês Choderlos de Laclos (os ingressos já estão esgotados).

O festival de artes cênicas, aliás, já trouxe nesta edição outra preciosidade francesa: Dominique Blanc, que comoveu o Theatro São Pedro na semana passada com o monólogo La Douleur (no cinema, Dominique e Isabelle trabalharam juntas em Um Assunto de Mulheres, de Claude Chabrol, que rendeu à segunda o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza). Com mais de 80 filmes em seu currículo, premiada nos mais importantes festivais, Isabelle Huppert, 56 anos, chega ao país cercada de merecido reconhecimento: além de mostrar a peça em São Paulo, a artista está sendo homenageada por lá com uma exposição fotográfica e um ciclo de filmes no CineSesc – que inclui o inédito Villa Amalia, sua quinta colaboração com o diretor Benoît Jacquot. Isabelle despontou no cinema em Corações Loucos (1974), antológico filme libertário e libertino de Bertrand Blier. Mas foi por papéis de mulheres um tanto distantes e mesmo gélidas que ficou célebre – caso da protagonista de Violette Nozière (1978), primeiro dos sete longas sob a direção do mestre Claude Chabrol e que lhe rendeu o prêmio de atriz em Cannes.

“De um lado, você tem o extremo de seu sofrimento, do outro, seu intelectualismo frio. Nenhum ator pode combinar os dois”, definiu o cineasta Michael Haneke, que a dirigiu em A Professora de Piano (2001), outro prêmio de melhor atriz em Cannes. Uma combinação singular, capaz de expressar a complexidade de sentimentos da apaixonante e frívola heroína do clássico Madame Bovary – que Isabelle encarnou com brilho na versão rodada por Chabrol em 1991, a despeito de parecer mais velha do que a personagem de Flaubert. Talvez seja esse o segredo do fascínio dessa mulher de olhar duro mas franco, cujas marcas do tempo no rosto acrescentaram-lhe mais luz do que sombras.

“É o diretor quem vê, e o ator avança sem ver, mas acreditando”, declarou Isabelle certa vez em entrevista à revista Cahiers du Cinéma. É isso: amamos Isabelle Huppert porque acreditamos nela – cegamente.

Para ver Isabelle Huppert EM DVD
A Dama das Camélias (1981), de Mauro Bolognini
Uma Janela Suspeita (1987), Curtis Hanson
Madame Bovary (1991), de Claude Chabrol
As Afinidades Eletivas (1996), de Paolo e Vittorio Taviani
Negócios à Parte (1997), de Claude Chabrol
A Teia de Chocolate (2000), de Claude Chabrol
Crônica da Inocência (2000), de Raoul Ruiz
A Professora de Piano (2001), de Michael Haneke
Oito Mulheres (2002), de François Ozon
Huckabees (2004), de David O. Russell
Nem Parece minha Irmã (2004), de Alexandra Leclère
Propriedade Privada (2006), de Joachim Lafosse
A Comédia do Poder (2006), de Claude Chabrol

EM VHS
Um Amor tão Frágil (1977), de Claude Goretta
Loulou (1980), de Maurice Pialat
Os Possessos (1988), de Andrzej Wajda
Um Assunto de Mulheres (1988), de Claude Chabrol
Mulheres Diabólicas (1995), de Claude Chabrol
Depois do Amor (1991), de Diane Kurys
A Separação (1994), de Christian Vincent
Amateur (1994), de Hal Hartley

(texto originalmente publicado no jornal Zero Hora)
 

Tempo demais na floresta

 

A Fita Branca procura, numa remota aldeia alemã do início do século 20, uma explicação para as possíveis origens do sentimento totalitarista

Flávio Guirland *

Michael Haneke iniciou sua carreira na TV austríaca há mais de 30 anos, e hoje trabalha em vários países da Europa. Nesse meio tempo, consagrou-se através de uma obra prolífica  são mais de 20 filmes como diretor, e outros tantos como roteirista. O motivo que o leva a filmar é quase sempre o mesmo: lançar um olhar crítico e nada lisonjeiro sobre a sociedade, moldada invariavelmente pelo desejo humano de poder, e o subsequente uso desse poder na submissão e humilhação alheias. Não, não poderíamos dizer que Haneke seja um otimista. É de sua autoria Violência Gratuita (Funny Games, 19971), cujo enredo trata de dois jovens psicopatas em uniformes de jogadores de tênis que tomam como refém, torturam e assassinam uma família burguesa em férias  uma análise do exercício da violência como forma de entretenimento. É seu também A Professora de Piano (La Pianiste, 2001), sobre uma rígida professora de música com propensões ao sadomasoquismo e à automutilação. Assim como Le Temps du Loup (2003), fábula pós-apocalíptica que descreve um mundo quase desprovido de bondade humana, e Caché (2005), sobre um casal de classe alta parisiense que se vê envolvido num ambiente de desconfiança e paranóia quando começa a receber fitas de vídeo enviadas por um observador oculto.

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