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Home Dossiê Gramado 2009 Lição latina

Lição latina

por Marcos Santuário

Entre os longas-metragens estrangeiros apresentados nesta 37ª edição do Festival de Cinema de Gramado, a riqueza de temáricas pôde ser percebida a partir de universos tão locais como o interior do Peru, um supermercado da periferia da capital uruguaia, o cosmopolitismo individualizante de Buenos Aires e uma fazenda colombiana localizada a poucos quilômetros de Bogotá.

Do documentário à ficção, os filmes latino-americanos nos mostraram como se pode contar histórias com emoção, uma estética equilibrada, atores bem conduzidos e realidades particulares que ganham contornos globais.

Da Argentina, vieram experiência e inovação com os trabalhos do veterano Fernando Solanas e da novata Paula Hernández. La Próxima Estación, de Solanas, mostrou como um documentário sobre trens pode ter um andamento mais emocionante do que uma Maria Fumaça que emperra a cada estação. Trouxe depoimentos colhidos ao estilo Michael Moore - o de procurar respostas para questões que nem sempre querem ser respondidas. Mostrou rostos e falas, unindo verdades, dúvidas e sentimentos profundos. Acabou reverenciado com o prêmio especial do júri.

Já Paula apostou nas condições climáticas para delinear uma história de encontros e desencontros na vida de dois personagens, uma portenha em crise no relacionamento e um exilado voluntário que volta de Madri para enterrar o pai, ambos interpretados com talento por Valeria Bertuccelli e Ernesto Alterio. As intempéries de Lluvia marcam essas buscas. Levou Kikitos de melhor fotografia e júri popular.

Do Peru a lição foi ainda mais impactante. Ao sair de Gramado com os Kikitos de melhor filme, direção e atriz, e com o prêmio do júri de estudantes, La Teta Asustada colocou a diretora Claudia Llosa no hall dos mais respeitados realizadores do continente. Ao seu lado, tanto em Gramado como em Berlim, o uruguaio Gigante agradou, levando prêmios de roteiro, da crítica e de ator (dividido pelo protagonista Horácio Camandule com o colombiano Matías Maldonado, de Nochebuena). Maldonado quer carreira no Brasil e pode seguir o caminho de Jean Pierre Noher, que, depois viver Borges no cinema com maestria, passou por aqui com outros trabalhos, seguiu filmando e ganhando prêmios, até encontrar espaço nas produções da televisão brasileira.

Novamente, o estilo, a forma, e o olhar dos cineastas dos países hispano-hablantes da América Latina trouxeram qualidade ao Festival de Gramado.

 

As origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre

A coincidência temporal entre a criação da primeira associação de críticos de cinema do Rio Grande do Sul e o centenário da primeira sala permanente de exibição cinematográfica da Capital (e possivelmente do Estado), o Recreio Ideal, em 2008, é significativa. Afinal, a regularização da atividade exibidora no mercado local, a partir de 1908, proporcionou aos porto-alegrenses uma oferta estável de programas cinematográficos, consolidando a prática de ir ao cinema entre as suas opções cotidianas de lazer e propiciando, assim, o estreitamento da relação entre espectadores e filmes, condição do desenvolvimento da reflexão crítica sobre o cinema e seus produtos. 

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