Por Mário Pertile
Quantidade de mensagens supera qualidade técnica na mostra alternativa
Aconteceu entre 03 e 09 de novembro de 2008 o 7º Festival de Vídeo Estudantil de Guaíba. Com o intuito de motivar o exercício da leitura crítica da mídia televisiva e a produção audiovisual como atividades pedagógicas vinculadas ao currículo escolar, o festival exibiu um grande número de obras em diversas mostras temáticas, além de atividades como debates e apresentações de projetos fomentando a discussão sobre a interferência produtiva do cinema e outras ferramentas audiovisuais no ensino.
O festival contou ainda com a “Mostra 30 anos Otto Desenhos Animados”, exibindo produções cinematográficas e uma mostra quadros de originais deste que é um dos ícones da animação nacional.
A mostra alternativa exibiu um total de 38 curtas, sem distinção de formato ou bitola, onde pôde se perceber claramente o cunho educativo do festival. Os curtas em sua maioria eram destinados a formação e conscientização, tratando, cada um com a sua visão peculiar, de algum ponto crítico em que a nova geração de espectadores deve prestar mais atenção no mundo como um todo. Temas recorrentes em diversos curtas foram a saúde, como no curta “Questão de Tato”, ilustrando o preconceito machista em relação ao exame de próstata, e o cuidado com a natureza, representado pela animação em stop-motion “A História de João das Alfaces”, destacado pelo júri oficial por conter uma grande mensagem educativa e pelo seu trabalho minucioso onde prevalecem os detalhes dos objetos produzidos com materiais do cotidiano.
A grande quantidade de filmes em um único conjunto cinematográfico se mostra uma fórmula um tanto quanto temerária, pois uma vez que não existe uma classificação de gêneros entre os curtas, muitas obras primárias, tanto em acabamento técnico quanto em um bom desenvolvimento de argumentos, além dos vídeos estritamente educativos, muitas vezes sem uma pretensão fílmica, acabam se misturando aos curtas-metragens propriamente ditos, causando um contraponto desconfortável para a mostra como um todo.
A solução para as próximas edições seria a segmentação dos assuntos abordados, não necessariamente por gêneros, mas por blocos temáticos de produções como, por exemplo, produções amadoras, produções do ensino médio, produções do ensino superior e produções profissionais, facilitando assim a justiça no julgamento de cada mostra.
Os curtas selecionados como vencedores pelo júri oficial nas categorias documentário, animação e ficção, são marcados pelo tema escolhido e pela forma como o mesmo foi abordado, pelas técnicas de produção e pela qualidade técnica interativa, respectivamente. Abaixo, a lista dos selecionados com uma breve justificativa:
Documetário:
1º - HIATO
(Direção: Viadimir Seixas – Rio de Janeiro/RJ)
Conta por diversos ângulos a invasão organizada e civilizada de um grupo de pessoas marginalizadas, moradores de uma vila próxima ao shopping invadido, que deslocaram a imprensa para cobrir tal choque de culturas. A edição de cenas capturadas por celulares, câmeras digitais, imprensa e cinegrafistas profissionais, mescladas com entrevistas protagonizadas pelos líderes do movimento dão um clima global ao filme, mostrando a invasão por diversos pontos de vista, levando o espectador a tirar suas próprias conclusões sobre o fato.
2º - FILOSOFIA DE BOTECO
(Direção: Pedro Morelli – São Paulo/SP)
Um grupo de amigos sai pela noite de SP de balada em balada a procura de jovens que possam dar, diante da câmera, depoimentos com sua visão sobre questões importantes da vida e problemas do mundo. O resultado é um conjunto de opiniões fúteis, quando as opiniões realmente existem. O clima do filme é desenhado por filtros coloridos e reflexos das luzes na noite, sempre com câmera na mão, com uma linguagem jovem, de formato digital, condizente ao tema.
3º - A FLOR DA PELE
(Direção: Tatiana Nemirovsky Assaad – Rio de Janeiro/RJ)
Depoimentos de pessoas cegas sobre seus universos, sobretudo sobre a sexualidade. Como sentem, como tocam, como imaginam os relacionamentos. Belo tema, tratado de forma natural e sem apelos pejorativos.
Animação:
1º - O PESCADOR DE SONHOS
(Direção: Igor Pitta Simões – Florianópolis/SC)
Impressionante trabalho em CG, com perfeito acabamento entre imagens e som, contando o dilema de um personagem confuso em busca de uma resposta para seus lamentos.
2º - SOLIDÃO SEM FIM
(Direção: Alexandre Costa – Belo Horizonte/MG)
Animação minimalista, desenhada quadro a quadro à mão, brinca com o clássico jogo de forca para falar de sentimentos profundos sobre saudade e relacionamentos.
3º - A VIDA DOS LIMÕES
(Direção: Coletiva – Curitiba/PR)
Stop-motion cru e direto que utiliza-se de um limoeiro para tratar de questões como vida e morte. Selecionado pela relação entre “resumo de recursos X argumento”.
Ficção:
1º - PORCOS NÃO OLHAM PARA O CÉU
(Direção: Daniel Marvel – Gravataí/RS)
Curta em P&B, com edição impecável, sobre uma mulher maniática portadora de todos os transtornos obsessivos compulsivos possíveis, que, por conta disso, resolve acabar com a própria vida. Após ingerir um frasco inteiro de comprimidos, descobre que no mesmo dia veiculará na televisão um especial de seu programa favorito. Criativo e tecnicamente bem resolvido.
2º - UMA FOTO
(Direção: Mateus Loner – Campinas/SP)
Meta-linguagem criativa que ilustra uma situação peculiar: assaltado ensina assaltante a lidar com uma câmera fotográfica. Aí se desenrola uma aula sobre ângulos, foco, lente e todos os quesitos fotográficos necessários para se capturar uma boa imagem.
3º - RÉ BEMOL
(Direção: João Paulo Jacobsen – Rio de Janeiro/RJ)
Boas intervenções narrativas comparando pessoas e situações a notas e estilos musicais.
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